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Costa-SilvaBrasil - Cão Uivador - [Rodrigo Cardia] Às vezes tenho a impressão de que quanto mais correntes são detonadas, mais "novidades" surgem. A última que recebi é um texto muito tosco, defendendo a ditadura militar. Me senti na obrigação de escrever uma resposta.


Primeiro vamos ao texto da mensagem, que copiei como veio: mal-formatado e (principalmente) mal-escrito...

É MUITO BEM HUMORADO E MUITO VERDADEIRO. . .


Na época da 'chamada' ditadura...
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem,quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por "assédio sexual",
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por "discriminação" por isso,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar "alcoolizado",
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas,sem que isso constituísse crime ambiental,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer...

...é falar mal do presidente!

que merda !

Bom, agora vem a parte mais divertida: destruir os "argumentos" de quem escreveu esse lixo e-mail.

O cara diz que se podia namorar até meia-noite dentro do carro sem medo da violência. Porém, basta pegar um jornal da época (por enquanto, a Folha de São Paulo disponibiliza gratuitamente pela internet seu acervo desde 1960) e ver que já havia tudo isso que os saudosos da ditadura dizem que não existia naquela época. Além disso, quem reclama do poder dos traficantes de drogas hoje em dia deve "agradecer" justamente à ditadura militar: sua política social consistia em mandar os pobres para bem longe do centro das cidades, sem a menor infraestrutura, assistência etc.; quem assumiu este papel nos bairros mais pobres foi o tráfico, pois o Estado estava ocupado com a perseguição aos comunistas. (Quem assistiu ao filme "Cidade de Deus" pode ver bem como isso se deu.)

Também diz a figura que precisar do INPS para assistência médica não era garantia de morrer em filas de hospitais, como acontece hoje com muita gente que depende do SUS. Porém, é preciso explicar algumas coisinhas: o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) é antecessor do atual INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social); a assistência médica foi desmembrada do INPS em 1974 com o nome de Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), que viria a ser substituído pelo SUS no início da década de 1990. Apesar do desmembramento, anos depois a maioria das pessoas ainda associava saúde pública com o INPS, e lembro bem de uma brincadeira dos meus colegas nos primeiros anos de colégio: na fila para a merenda, diziam estar esperando na "fila do INPS". Se até crianças falavam disso, o sistema não devia ser lá muito bom... Ah, e é importante destacar que o INAMPS não previa atendimento universal como temos atualmente pelo SUS (se é bom ou não, é outra história): o direito só era assegurado para quem contribuía com a Previdência, ou seja, os que não tinham carteira assinada se ferravam.

"Podíamos comprar armas e munições a vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem, quem era bandido e quem era terrorista". Simples: o governo sabia tão bem quem era "terrorista" (uso aspas sempre, pois os verdadeiros terroristas eram os governantes), que matou um jornalista da TV Cultura de São Paulo – certamente ele bolara um jeito de usar o sinal de televisão para explodir todos os aparelhos e semear o caos. Sem contar que um sujeito com um nome "russo" (apesar de ter nascido na Croácia, então Iugoslávia, que rompera com Moscou), ainda por cima xará de Lenin, só podia ser "terrorista".

Ele também reclama que naquela época "paquerar as colegas de trabalho não era assédio sexual". Na certa o cara gostava mesmo não era de paquerar, e sim de oferecer vantagens profissionais em troca de "sexo fácil" – reparem que ele fala se sentindo superior às mulheres que supostamente "paquerava". Provavelmente o cara fica fulo da vida porque hoje elas têm o direito de denunciá-lo pelo crime de assédio sexual.

Depois ele vem reclamar que não pode mais chamar homossexual de "bicha", negro de "negão" (e ainda acredita que a humanidade se divida em raças), religioso de "crente" (mas certamente deve salivar de raiva porque mandaram tirar os símbolos religiosos das dependências da Justiça no Rio Grande do Sul). Afinal, hoje ele é processado por discriminação... Reparem que ele se sente no direito de xingar os outros, mas não gosta que alguém manifeste desagrado quanto a isso.

Mas ainda não acabou. Se segure na cadeira... O cara reclama que não pode mais tomar cerveja e ir embora dirigindo! Sem comentários, né?

Depois ele vem reclamar que se cortar uma árvore, comete crime ambiental hoje em dia... Vai ver é daqueles que acham as leis ambientais um entrave ao desenvolvimento: sugiro que ele pergunte aos habitantes de Petrópolis o que acham de terem eliminado "os freios ao progresso".

Então, depois de voltar a reclamar da insegurança (não vou repetir o que já escrevi sobre isso), a figura me encerra o texto dizendo que hoje em dia a única coisa que podemos fazer é falar mal do presidente...

Pois que bom que podemos falar mal do presidente! Na ditadura isso não era possível. Se alguém fizesse uma piada contra o governo, corria sério risco de ser preso e sabe-se lá o que aconteceria depois.

Mas hoje em dia podemos fazer bem mais do que falar mal do presidente (ou, para ser mais atual, da presidenta). Temos o direito de criticar a política de segurança pública do governo; de exigir melhorias na saúde (que ainda tem incontáveis problemas); de denunciar assédio sexual, machismo, racismo, homofobia e vários outros preconceitos; de querer andar um pouco mais tranquilo na rua, sem correr o risco de topar com um bêbado empunhando uma arma ou dirigindo um carro; e também de lutar pela preservação ambiental, sabendo que sair destruindo tudo não é uma boa ideia. Geralmente não somos ouvidos, as leis não são cumpridas, mas ao menos nos deixam falar.

Na época da ditadura, não podíamos fazer nada disso. Nem sequer criticar o presidente. E por isso espero que nunca mais o Brasil sofra desse mal.

PS: Quando falei sobre ver as notícias sobre violência nos jornais da época (1964-1985), esqueci um detalhe fundamental: se lia apenas o que passava pelo crivo da censura... Ou seja, jamais soubemos de muita coisa que aconteceu.

Rodrigo Cardia é historiador.

Imagem: em destaque Costa e Silva, segundo presidente da ditadura brasileira (1964-1985), e ao fundo ativistas picham abaixo a ditadura em um muro.


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