Defendi que havia coerência política na aliança, pois os dois partidos eram muito próximos em termos de ideias, mas que havia o perigo do esfacelamento da coligação devido às disputas políticas: "Qual o empecilho que pode existir para tal aproximação? Como ambos correm na mesma "raia política", os "caciques" dos dois partidos disputam os votos e os cargos que a administração federal oferece (...) Mas fica claro que a disputa entre governo e oposição de direita é restrita às eleições e não se direciona ao combate aos poderosos, pois governo e esta oposição apoiam os mesmos projetos capitalistas. O governo Lula convive tão bem com o agronegócio e o grande capital especulativo, financeiro e industrial quanto o seu antecessor. A disputa eleitoreira é, hoje, a maior disputa entre os dois partidos".
Pois bem, o quadro político em BH continua o mesmo. Inicialmente, os caciques do PT voltaram a apoiar a coligação com o PSB/PSDB, contra um grupo minoritário, vinculados ao vice-prefeito. Foram realizadas as consultas aos filiados e esta aliança foi referendada. Porém, na última hora, por força eleitoreira do PT para a formação da chapa proporcional de vereadores e por pressão do PSDB para o não fortalecimento do PT, a aliança foi desfeita. Desta forma, o diretório nacional do PT entrou na disputa e indicou um nome forte para concorrer com Márcio Lacerda, qual seja, o ex-prefeito e ex-ministro Patrus Ananias. Diante destes dois candidatos da ordem, como fica o quadro para a esquerda socialista?
Márcio Lacerda, do PSB/PSDB, representa uma administração empresarial, que não difere muito das administrações petistas anteriores, principalmente de seu padrinho, o atual ministro Fernando Pimentel. Portanto, inaceitável para qualquer forma de "esquerda".
Patrus Ananias tem sido coerente com as mudanças de seu partido. Apoiou Newton Cardoso para o senado e foi candidato a vice-governador na chapa de Hélio Costa para o governo de Minas. Apoiou (verdade que sem muito entusiasmo) a coligação com Márcio Lacerda para esta eleição. Para o neoPT basta não ser o PSDB que qualquer coligação é válida.
Porém, o mais problemático, a meu ver, na eleição de Patrus, será sua capacidade de cooptação dos movimentos sociais, estudantis e trabalhistas. Considerado um "petista histórico e ético", conseguirá um bom diálogo com estes movimentos e eles poderão apoiar o prefeito nas suas ações. Porém, como dito, Patrus é coerente com o atual PT e, assim, poucas mudanças reais veremos. Será um governo do neoPT, sem nenhum avanço real crítico ao mundo do capital, mas com grandes chances de receber o apoio dos movimentos e, o pior, desarticulá-los, como vimos no governo Lula.
Desta forma, para os que ainda acreditam no socialismo anticapitalista, restam as candidaturas da esquerda socialista. O PSOL está coligado com o PCB e lançou a professora Maria como candidata, o PTSU está com Vanessa Portugal, e o PCO com Pedro Paulo. O ideal era a reedição da Frente de Esquerda, composta por todos os partidos anticapitalistas legais ou ilegais. Mas como não foi possível, a esquerda socialista deve apoiar quem defende as suas ideias e se definir por uma dessas candidaturas, mesmo que não vençam agora.
Como dado financeiro, os candidatos da ordem, Lacerda e Patrus, definiram seus gastos em mais de 50 milhões e os candidatos da esquerda, reunidos, pretendem gastar cerca 70 mil reais. É o velho retorno do milhão contra o tostão.
Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo e professor universitário.



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