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140912 castellanosPaísos Cataláns - Gara - [Beñat Zaldua, tradução do Diário Liberdade] A histórica manifestação de terça-feira marcou um novo patamar em direção à independência catalã.


Carles Castelhanos é um dos sobreviventes históricos da Esquerra Independentista dos Països Catalans. Fundador do Partit Socialista d'Alliberament Nacional (PSAN) no final dos 60, sua militância levou-o em mais de uma ocasião a conhecer o exílio e o cárcere. Tradutor de oficio, hoje em dia compartilha sua atividade no Moviment de Defesa da Terra (MDT) com a vicepresidencia da Assemblea Nacional Catalã (ANC), embora nesta entrevista responda a nível estritamente pessoal.

A ressaca da Diada do passado 11 de setiembre continua a sacudir, três dias depois, os cenários políticos catalão e espanhol. Entre os temas a debate, o caminho que deve seguir a ANC -convocante da marcha mais multitudinaria da história de Catalunha-, no seu objetivo de avançar para a independência, evitando, ao mesmo tempo, converter-se em uma ferramenta facilmente manipulável por CiU.

Concorda com a impressão formulada por Lluis Llach quando diz que estamos ante o início de uma nova época?

Sim, é verdade. É um movimento que vem de fundo, que interpreta os interesses da população e que consegue que a gente se identifique com um objetivo político, que é a independência. Após a Diada, este objetivo adquiriu ainda mais relevância e agora tterá que se resolver politicamente, o pôr em cima da mesa das instituições e estar atentos a seus movimentos.

Dizem que já começaram a ir para a independência. Nós não vamos acreditar nisso até que vejamos que dão passos concretos.

O roteiro da ANC finaliza em 2014, com as eleições das que deveria sair uma maioria suficiente para proclamar a independência. A Diada e o previsível adianto eleitoral mudam o calendário?

O roteiro aprovou-se sendo conscientes todos de que era flexível e que se tem que ir adaptando. O que sim acho é que o processo deve ser levado a cabo no curto-médio prazo. Eu antes situava o processo em 10, 12 ou 15 anos, mas agora será bem mais rápido.

Ao dia seguinte da Diada, começou a luta por ver quem capitalizava a manifestação de Barcelona. Que lhes parecem estes movimentos e, sobretudo, os de Mas?

São um sinal de que não querem perder impulso, por isso falam já de ir para a independência. O que se passa é que a palavra não a dizem nunca. Aliás, não dá para confiar muito neles. Eles estariam de acordo com uma independência que pudessem controlar. Agora têm uma oportunidade, porque ainda estão no topo do poder e não querem perder o centro do controle político, mas estaremos atentos para que não enganem a gente.

Se não derem esse passo de que fala, arriscam-se a perder a centralidade política do país?

Claro, é isso. Captaram-no e querem-na manter. Mas aí está também nossa luta, em conseguir que os conteúdos não dependam de Convergéncia. A eles o que lhes interessa é o modelo que há agora, mas isso não poderá ser, porque a gente não o aceitará, por muito desinformada ou despolitizada que esteja. Esta vontade pela independência vem também porque todo mundo intui que a saída deve ser outra coisa, não a que há agora no Estado espanhol.

140912 catA ANC deixou clara sua intenção de não se converter num partido político. Que ferramentas tem para impedir ser manipulada pela classe política?

Não fica outra que definir seu espaço. Elaborar um discurso próprio, que em princípio já se foi fazendo e não é o mesmo que o de Convergència, que ainda não construiu um discurso independentista. Embora já tenham adiantado algumas coisas que são preocupantes, como a de que há que começar a criar estruturas de Estado. Isso quer dizer que nos temos que começar a preparar porque as estruturas de Estado de um partido como CiU já sabemos quais serão. Há que ter em conta que a maioria da Assemblea não é de tendência convergente, de facto, sobretudo neste soberanismo espontâneo, e no momento das decisões favorece-nos a nós, que levamos toda a vida no independentismo. Eu, sem fazer nada de propaganda, saí eleito vice-presidente. Mas bom, é muito difícil fazer política ali dentro, embora haja que ir fazendo-a.

A partir da esquerda, sobretudo de setores da Esquerra Independentista, acusam a ANC de falta de discurso para além da independência. Para quando um debate sobre o modelo de Estado que quer ser conseguido?

Bom, isso está previsto desde o começo e o debate está em marcha, com uma comissão que trata o tema. Dentro do roteiro, previu-se também elaborar umas bases constitucionais. A nível prático há uns debates muito intensos, porque há todo um setor que acha que a Assemblea se tem que posicionar de maneira regular junto às mobilizações populares e outro que não quer que se diga nada mais além da independência. É uma luta constante.

Esta transversalidade faz perder discurso político?

Sim, está claro. Mas a gente também vê que há que ir se posicionando e acho que o fará para posições de centroesquerda. Mas é que a Assemblea também não o tem que fazer todo, vai abrindo caminho mas chega até onde chega, não é uma frente política nem um partido político. Os dois eixos claros são a independência e a outra, que tem muita corda, a radicalização democrática.

Há uma renúncia à territorialidade dos Països Catalans?

Não. A formulação que há é que a nação catalã são os Països Catalans. Mas baseia-se também no facto de que os processos não são os mesmos em todos os sítios. O que há que fazer é o articular, embora haja quem não vai trabalhar por isso. O que sim há que respeitar é o tempo que precisam, por exemplo no País Valencià e as Illes Balears, para fazer trabalho de massas.

O senhor é militante histórico da Esquerra Independentista, qual acha que deve ser o papel da EI neste processo e daí deve fazer para o cumprir?

O primeiro que tem que fazer é organizar em um organismo político de massas. Eu sou também do MDT e defendemos que esta organização de massas deve ser a CUP, mas temos muitas dificuldades para o fazer. A gente move-se mais por simbolismos que por factos políticos.

Para acabar, embora o caminho seja ainda muito longo, ontem se começou abrir uma porta para a independência de Catalunha. Quais são as chaves para manter essa porta aberta e conseguir atravessá-la?

Eu acho que o problema, e é minha opinião pessoal, não é tanto se conseguiremos a independência ou não, que sim a conseguiremos, mas se a independência a declarará Convergència ou a declarará a esquerda. Tal qual estão as coisas agora, vai ser Convergència. Se a Esquerra Independentista não acordar, não teremos um Estado como o de agora, porque a gente pressionará para que mude, mas custará muito ter um Estado para avançar para o socialismo. Em troca, se fossem mais protagonistas, poderiam intervir mais.


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