Hoje celebra-se a cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Os meios de comunicação não vão falar senão da maravilhosa ocasião que eles representam, do progresso que vão trazer ao "nosso país" e mais de como é uma grande época para se ser britânico.
Vão ser descritos como um acontecimento familiar, vão tirar-se fotografias das multidões que esperam ansiosas pelo momento para entrarem ao estádio olímpico. A primeira dama e Mitt Romney mesmo viajaram a Londres, embora Romney não tenha vindo a causa do desporto, visto já se ter reunido com o chefe do MI6.
É verdade que milhões de pessoas assistirão tanto à cerimónia quanto aos acontecimentos que se seguirão nas próximas semanas. Mas a história real do caminho andado até aqui é totalmente diferente daquela que nos querem vender os meios de comunicação e mais a imprensa. E nessa história aparece uma democracia espezinhada, as corporações são as grandes dominadoras e a sociedade está militarizada.
Apresenta-se a seguir um guia dos Jogos Olímpicos para ativistas com a intenção de as pessoas lembrarem que mais alô da pompa da cerimónia existem os subterrâneos da injustiça e a exploração
1. Orçamento e custos
A despesa financeira nos jogos está a aumentar mais e mais...
Orçamento originário: £2.4 bilhões
Aumento dos custos até 2007: £9.3 bilhões ( cifra mencionada por David Cameron)
Custos calculados pela Games Monitor: £13 bilhões
Custos totais aproximados depois da renovação dos transportes: £24 bilhões (equivalente já logo a um quarto de todo o orçamento do NHS, nome compartido por três dos quatro sistemas públicos de saúde britânicos, para o período 2011/12)
Investimento na estrutura conhecida como "Jurassic Stones": £335.000.
Em 2007 desviaram-se para os jogos olímpicos rendimentos da lotaria, inicialmente destinados a obras de caridade, valorados em £675 milhões, com a promessa de restituir esta quantidade aos beneficiários iniciais, assim que acabassem os jogos, através da venda dos bens olímpicos. Porém, o governo já declarou que tal não acontecerá até pelo menos daqui a dez anos.
2. Militarismo
David Cameron declarou ser a segurança a preocupação mais importante durante os jogos. Ora, uma cousa é a segurança e outra é a preparação para a guerra na que parece estar a converter-se Londres 2012...
Vai haver à volta de 23.700 pessoas dedicadas à segurança, entre militares e sector privado.
À volta de 13.500 soldados participam em operações relacionadas com os jogos olímpicos, o que inclui uns 7.500 destinados exclusivamente à segurança dos recintos olímpicos. A seguir ao falhanço da companhia privada G4S acrescentaram-se mais 3.500.
No cômputo total figuram os 3.000 voluntários de segurança que não cobram nada.
Instalaram-se mísseis terra-ar no alto de diversos blocos de prédios sem pedir a permissão dos moradores, com os quais nem sequer se falou.
9 de até 12 polícias regionais estão a enviar oficiais a Londres como reforço especial.
3 "unidades de elite" treinadas nas técnicas de combate do SAS vão formar "Equipas de Resposta Armada Combinada".
Agentes de segurança estado-unidenses vão trabalhar em vários aeroportos do Reino Unido.
500 agentes do FBI reforçarão a presença estado-unidense.
Empregar-se-á armamento de "alta tecnologia não letal", por exemplo Aparelhos Acústicos de Longo Alcance fabricados nos EUA. Estes aparelhos projetam um chio penetrante que provoca dor nas pessoas que se encontrem numa área de vários centos de metros arredor. Este tipo de armamento emprega-se habitualmente para controlar tumultos e foi usado durante os protestos pela cimeira do G20.
A RAF declarou que: "É provável as pessoas perceberem um incremento na atividade aérea durante as horas de maior trânsito".
A Royal Navy também realiza o seu contributo. Na sua web lê-se que: "Atiradores da armada procedentes do Esquadrão de Assalto 539 e do Comando 43 vão ir a bordo de helicópteros Navy Lynx, prestes a disparar sobre os motores de navios suspeitos ao passo que atiradores de regimentos da RAF vão fazer o mesmo sobre aviões ligeiros."
3. O sector privado
Os patrocinadores oficiais são uma banda de desavergonhados...
Dow Chemicals, proprietária da infame Union Carbide.
General Electric
Proctor and Gamble
Atos
Coca Cola e McDonalds
BP, que é o patrocinador "sustentável".
RioTinto, uma corporação mineira britânico-australiana.
Existe uma "Zona de Exclusão de Marcas" onde só se podem anunciar as marcas olímpicas "oficiais".
Uma pinta de Heineken vai valer o equivalente a £7.32
A garrafa de Coca Cola de 500ml vai valer £2.30
A água da marca Coca Cola (a única disponível) está a £1.80
A roupa oficial dos jogos olímpicos fabrica-se em condições precárias, como de talher clandestino. Os trabalhadores são forçados habitualmente a trabalhar 60 horas por riba do seu horário mensal. Os bonecos da mascota fabricam-nos trabalhadores chineses a cobrarem 24 peniques à hora.
Os milionários veem nas Olimpíadas uma oportunidade para comer e beber com clientes e construir redes de contatos.
Apressem-se a comprar uma receção com champanha e ceia bem farta antes da cerimónia inaugural no "Prestige Pavilion", são apenas £7,500 por pessoa.
Por sua vez, o pessoal de limpeza permanece fora da vista do público em cabinas portáteis cujas comodidades estão bem longe das que oferece o Prestige Pavilion: 25 pessoas por casa de banho e 75 por duche.
4. Democracia
Grandes custos, enorme operação militar, utilização por milionários e corporações,... mas não se permite protestar...
Instalam-se mísseis sem falar com as comunidades.
A Counter Olympics Network organiza uma demonstração contra a gestão de Londres 2012, mas a câmara municipal de Tower Hamlets proíbe-lhes realizar discursos públicos.
A polícia conta com poderes extraordinários de acordo com a Lei dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres (London Olympic Games and Paralympic Games Act) de 2006 que, conforme alguns defensores dos direitos civis, poderia afetar os cartazes de protesto: "Estas regulações poderão aplicar-se respeito de publicidade de qualquer tipo, o que inclui particularmente: a) Publicidade de natureza não comercial e b) Anúncios e avisos de qualquer tipo."
Há uma "zona de dispersão" olímpica que procura limpar de pessoas pouco aptas as áreas arredor dos recintos.
A herança de Londres 2012
Cada vez que se questiona um funcionário acerca do custo dos Jogos Olímpicos ele sempre responde: "Com efeito, é caro, mas pensem na herança que deixará ao país".
Na verdade a herança é mesmo um microcosmos da classe de sociedade que os nossos governantes desejam: privatizada, militarizada, do lado dos ricos e com as liberdades civis de trabalhadores e comunidades submetidas a um asfixiante controlo. Os jogos ilustram bem, aos olhos de todos os que lutam em favor duma alternativa ao capitalismo, como o sistema é quem de converter uma reunião mundial de atletas num circo para um por cento e num acontecimento profundamente imoral.
Tradução de Alberto Lozano para o Diário Liberdade.