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PT-BOLIVIABolívia - Causa Operária - Sobre que bases os operários bolivianos estão erguendo o seu novo partido? Uma vez fundado, que caminho tomar? Está em marcha um processo fundamentalmente novo e que pode abrir uma avenida para a intervenção massiva da classe operária boliviana e para a luta pelo programa revolucionário.


Uma análise do recém-fundado PT boliviano exige a recuperação de algumas ideias elementares a respeito do país e de sua classe operária.

A Bolívia é um país peculiar na América Latina. Ainda que não seja um país que se destaque por sua industrialização (é, rigorosamente, praticamente um país desindustrializado, agrário, cuja economia depende da exportação de matérias primas vindas, principalmente, de suas minas e de seu subsolo), sua classe operária adquiriu uma presença ativa na luta das massas latino-americanas devido à sua alta concentração e organização e ao papel central que esta cedo adquiriu no conjunto da economia boliviana.

A classe operária boliviana protagonizou lutas importantes como a revolução de 1952 e a formação nos anos de 1970 da Assembleia Popular boliviana, uma organização de tipo soviético criada em meio à crise de 1971, a primeira deste tipo na América Latina.

A Bolívia representa, em um certo sentido, um resumo, uma concentração, da evolução da luta operária latino-americana em suas diversas etapas. Por suas complexidades políticas e sociais e a concentração da classe operária, as ações políticas tomadas por ela se desenvolvem de maneira mais rápida, vencendo obstáculos que os operários brasileiros e de outros países demoraram e demoram anos a ultrapassar. É, por assim dizer, uma espécie de termômetro da luta de classes na América Latina. Enquanto a "temperatura" da luta social começa a subir no Brasil, na Bolívia esta rapidamente alcança um ponto culminante e se desenvolve em revolta, geralmente explosiva e de contornos claramente revolucionários como a insurreição popular que levou à derrubada do governo pró-imperialista de Gonzalo Sánchez de Losada, o "Gringo", em 2003.

A revolta de 2003, contra a privatização das reservas aquíferas do país e o controle privado do petróleo e do gás, foi uma manifestação precoce das grandes lutas que ainda estão se desenvolvendo e não alcançaram seu ápice e levaram a situação política de conjunto a uma nova etapa em outros países do subcontinente.

Na Argentina, por exemplo, a explosão popular contra o governo de la Rua estourou primeiro na classe média. A classe operária, em particular os desempregados, acompanhou o caminho aberto pelos protestos da pequena-burguesia sem conseguir desenvolver uma iniciativa independente. Na Bolívia, a insurreição foi encabeçada pelos próprios trabalhadores.

A questão do PT recolocada pela luta operária boliviana

A criação de um partido operário, apoiado nos sindicatos, nas organizações dos próprios trabalhadores, é uma tendência latente no movimento operário internacional e que está sendo desenvolvida, além do ponto ao qual chegou no Brasil no início dos anos 80, pelos trabalhadores bolivianos.

Há uma tendência embrionária da classe operária a se libertar da camisa-de-força dos partidos "de esquerda", isto é, da esquerda pequeno-burguesa e burguesa, de tendências nacionalistas, antioperárias. Para que essa tendência se desenvolvesse no Brasil, por exemplo, quando da construção do PT, seria necessário um volume muito maior de sindicatos do que aquele que, representados exclusivamente por suas direções, se lançou a organizar o partido no seu início.

O PT boliviano nasce sobre a pressão da classe operária de seu país. O fato é evidenciado pela decisão de que os delegados a seu congresso de fundação, sua direção e seus candidatos serão escolhidos pelos sindicatos. Esta conjuntura dá ao PT boliviano um potencial revolucionário, operário, muito maior que o que possuía o PT brasileiro. Na Bolívia, a tendência à construção de um partido verdadeiramente operário de massas é mais firme, mais nítida e dá um desenvolvimento ao que foi interrompido pela direção pequeno-burguesa do PT nos anos 80.

O esforço dos sindicatos bolivianos, nesse sentido, caminha para uma ruptura com a tendência a construir uma alternativa à esquerda dos partidos burgueses que se limite aos marcos do regime político burguês e de seu jogo de cartas marcadas eleitoral. Diversos "abortos" desta tendência foram produzido ao longo dos anos desde que o PT brasileiro assumiu um rumo claramente burguês e pró-imperialista. No Brasil, o Psol nada mais fez do que se constituir como uma pequena imitações do próprio PT e sem a ligação do PT com a classe operária, ou seja, um partido claramente pequeno-burguês. O mesmo ocorreu em diversos outros países, não apenas na América Latina, mas na França, com o NPA (Novo Partido Anticapitalista), que nada mais é que uma caricatura do Partido Socialista; e na Alemanha com o Die Linke (A Esquerda), uma miniatura da Social-Democracia Alemã das últimas décadas.

Os trabalhadores bolivianos estão passando pela experiência de construção de um partido próprio, operário, contra a tentativa de repetir os erros da esquerda boliviana arrastada pelo MAS (Movimento ao Socialismo, de Evo Morales) e, até mesmo, de modo consciente, como expressaram no congresso de fundação do seu PT, contra o PT brasileiro, do "traidor Lula".

O problema do nacionalismo burguês

A esquerda pequeno-burguesa tende a considerar que o nacionalismo burguês não constitui uma força viva e presente na situação política atual. Trata-se de uma confusão e um erro que deverá se provar fatal para esta esquerda. O nacionalismo não é fraco sob o ponto de vista de que os problemas nacionais que o geram são muito mais agudos hoje do que eram no passado.

O nacionalismo da etapa política anterior (no Brasil, dos anos 30, 40) procurava se afirmar e levantava como bandeira o desenvolvimento econômico do país atrasado. Vargas impulsionou a Petrobras, a Cia. Siderúrgica Nacional, a Eletrobras; a burguesia tinha planos mais ambiciosos, que fracassaram por sua incapacidade de enfrentar o imperialismo. Agora, embora os planos da burguesia nacionalista sejam menos ambiciosos, os problemas, isto é, o conflito de interesses com o imperialismo, se acirraram.

A classe operária tende a superar o nacionalismo ainda mais rápida e completamente devido ao acirramento das contradições sociais. A relação de forças na disputa entre o nacionalismo e a classe operária é mais favorável para esta última porque a base material para o nacionalismo burguês é mais fraca. Enfraquecida e engolfada pela própria crise capitalista mundial, a burguesia nacional não tem condições de ceder, de fazer concessões e aplacar os ânimos da classe operária de modo satisfatório.

Esse processo se desenvolveu claramente na Bolívia. Evo Morales é um camponês sindicalista. A classe operária chegou, por meio de suas direções sindicais (com quaisquer limitações políticas e ilusões que possam ter) à conclusão em que se viu obrigada a afirmar: "com Evo não dá. Precisamos de um partido operário".

A burguesia imperialista anunciou a morte de todos os nacionalismos; segundo seus teóricos e escribas, a humanidade teria chegado a era da "globalização". De repente, ressurge o nacionalismo (Chávez, Lula, Morales, Correa e outros) com uma força que parecia inacreditável.

A tendência nacionalista (isto é, a que se apoia nas contradições nacionais, e não no nacionalismo ideológico) é cada vez mais forte. Essas tendências mostram a mudança na relação de forças. No Brasil, a direita está murchando, em franca decadência. Na Bolívia, a direita está esmagada como força com algum respaldo popular.

A esquerda pequeno-burguesa e o partido operário

A realização do congresso que fundou o PT boliviano deixou evidente que a esquerda boliviana existe completamente à margem do movimento operário. Não possui qualquer inserção nos sindicatos. Obtiveram uma votação mínima no congresso e só conseguiram participar neste como representantes de si mesmos, isto é, aderindo ao chamado feito pela COB aos sindicatos e federações e submetendo a inclusão de suas delegações de militantes individuais à aprovação dos delegados operários eleitos para o Congresso.

É um fato indissociável que a política da esquerda não estava dirigida a construir um partido operário, seja transformando o PT fundado pelos sindicatos, seja ultrapassando a política da burocracia por meio da luta política dentro do PT. A política da esquerda pequeno-burguesa boliviana está dirigida a conseguir um suporte para sua própria debilidade ou quase nulidade política, suporte este inclusive e muitas vezes de características eleitorais. Participaram da fundação do PT boliviano porque não tinham nada e podiam tentar conseguir algo, que muitas vezes é apenas eleitoral.

O PT e o problema das tendências

No Congresso uma preocupação puramente particular da esquerda se expressou no conflito de interesses resumido na votação de um dos poucos destaques a respeito dos estatutos do novo partido.

A delegação mineira pediu a supressão de um ponto do estatuto que previa "a livre organização de correntes políticas que tenham independência de classe e que fortaleçam o PT".

Representantes de todas as organizações de esquerda credenciadas com direito a voto se levantaram para defender o "direito a tendência", o "direito à liberdade de expressão e organização", no PT.

Os mineiros e os delegados dos sindicatos rejeitaram em massa. À esquerda só restou lamentar a "imensa derrota".

O que foi derrotado foi o impulso da esquerda pequeno-burguesa no sentido de conseguir um espaço próprio dentro do partido e não a liberdade de divergir. Mostraram, ao denunciar a "burocracia sindical" que, por sua vez, não têm nada a oferecer ao movimento operário e que não conseguiram compreender quem são e o que querem aqueles que possuíam a maioria no congresso que fundou o PT. Sem proibir as teses e os agrupamentos políticos, o que os operários ainda que confusamente rejeitaram foi a criação de um partido que seja uma federação de tendências, ou seja, o oposto de um verdadeiro partido.

Com uma presença operária muito grande, diminui a capacidade de controle por uma burocracia, o que fica claro pelo tom esquerdista das declarações e documentos aprovados pelo partido.

A política de defesa das tendências à custa do PT tem como efeito negativo o de dividir os trabalhadores e facilitar o caminho para que, diante da completa impotência e ausência da esquerda como força política independente das inclinações centristas e burocráticas de parte dos dirigentes sindicais, os trabalhadores se vejam entregues de mãos atadas a uma burocracia centrista.

Como construir um partido operário

Diante destas questões, é necessário definir: quais são as tarefas da vanguarda revolucionária na construção de um partido operário de massas na Bolívia?

Parte da esquerda boliviana (e latino-americana) fez um esforço para se inserir na construção do PT abandonando qualquer programa.

Para alguns, a luta por que o PT se torne um partido operário revolucionário e socialista pode ser posta de lado se o partido, dirigido pelas cúpulas sindicais bolivianas, lançasse um "plano de luta" e tivesse uma estratégia determinada para sua participação nas eleições.

A ideia, divulgada por um dirigente do PO argentino nos círculos de discussão de pequenos grupos que se reivindicam trotskistas na Bolívia, de que "um passo adiante no movimento vale mais que um programa", uma frase de Marx utilizada com propóistos oportunistas de escamotear a luta pelo programa, não passa de uma manipulação das palavras de Marx para recobrir de "pseudoteoria" uma política oportunista.

O POR boliviano, por sua vez, se dirigiu ao congresso com um ultimato, algo como: "ou vocês aceitam o meu programa ou vou para casa". Foram para casa.

É preciso apresentar aos operários o programa de luta dos revolucionários comunistas, por um governo operário e camponês, pelo socialismo. É preciso explicar pacientemente aos operários, na prática, por meio de uma imprensa, de um amplo trabalho de agitação e propaganda, do ponto de vista racional, positivo, prático, o significado dessas palavras-de-ordem. Os operários devem assimilar este programa pela experiência da sua luta. Os revolucionários devem se colocar a construir o PT, conquistar a confiança dos operários mostrando que são os verdadeiros defensores dos seus interesses, organizando os operários para a luta e fazendo propaganda do socialismo.

A criação do PT boliviano oferece um quadro positivo, amplo, para a luta por um programa realmente revolucionário.

A política da esquerda, ultrasectária em forma e conteúdo, pode-se resumir no seguinte: para a esquerda pequeno-burguesa, que nada tem a ver com o movimento operário, o problema não seria criar um partido operário, mas manter-se (ou sair de) dentro dele imaculado (uma grande ironia para uma esquerda que já passou por todos os caminhos do oportunismo político). Possuem o plano ideal, as receitas prontas para que os operários façam isso, aquilo e aquilo outro enquanto são dirigidos pelos "ungidos pela palavra do socialismo". É um programa (na medida, claro, que apresentaram algum programa) em defesa da sua própria virgindade política e não um programa para desenvolver a luta de classes.

O que mais é preciso na atual etapa de formação do PT boliviano é um programa que sirva de guia para a ação. São princípios que permitam o desenvolvimento da luta de classes.

A esquerda nada tem a esperar se sua luta se resumir a organizar-se, juntar forças entre grupos e grupelhos de esquerda que possuam o aval de um falso programa revolucionário "trotskista" para tentar galgar posições na direção do partido, ou candidaturas nas eleições.

É tarefa do revolucionários mostrar aos trabalhadores que ser revolucionário é útil, é uma defesa mais elevada dos interesses operários. É preciso conquistar a confiança dos trabalhadores na luta por um PT que seja efetivamente classista e revolucionário.

A tarefa é a de formular um claro programa revolucionário baseado nas tradições revolucionárias do proletariado boliviano (teses de Pulacayo), ir às bases com milhares de panfletos e jornais, realizar reuniões, discutir e organizar a vanguarda dos trabalhadores que já aderiram ao PT para, junto com estes, arregimentar os demais escalões da classe operária boliviana e das massas populares detrás de um verdadeiro partido operário de massas, e impulsionar a luta por um programa verdadeiramente revolucionário, pela revolução proletária e o socialismo.


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