O dia 29 de fevereiro marca uma das mais trágicas e doloridas páginas da recente história dos povos latino-americanos e caribenhos. Em 29 de fevereiro de 2004, se iniciou a ocupação militar do Haiti, primeiro país do continente a se livrar do colonialismo e da escravidão a partir de uma insurreição popular.
A ocupação militar do Haiti se iniciou após uma série de eventos violentos, financiados e executados com apoio direto da CIA, com vistas a desestabilizar o governo populista de Jean Bertrand Aristide que vinha promovendo tímidas reformas sociais no país. Estes eventos culminaram no desembarque de tropas dos EUA no país, que sequestraram Aristide. Pouco tempo depois, assumia a presidência do país o fantoche Gerard Latortue. Estava consumado o golpe de estado e a ocupação militar.
A ONU e o Brasil entram em cena
Eis que em meados de 2004, os EUA se "retiram" do país, deixando a responsabilidade da ocupação militar à ONU. Sua retirada cumpria duas funções políticas: dar uma legitimidade à ocupação, de forma que a mesma não fosse encarada como mais uma intromissão imperialista no continente e concentrar esforços em sua ocupação no Iraque.
A entrada da ONU em cena foi crucial para que a ocupação fosse tratada como "humanitária", assim como a conduta de Forças Armadas (FFAA) latino-americanas foi essencial para que a ocupação não fosse vista como realmente é: uma ação imperialista. Coube ao Brasil o nefasto papel de comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a MINUSTAH, que também conta com tropas da Argentina, Chile e Uruguai além de países cujos governos encampam o "progressista socialismo do século XXI" como Bolívia e Equador.
Sob a patética justificativa de se controlar gangues que desestabilizariam o país, as tropas de ocupação em realidade seguem exercendo uma voraz repressão contra o povo desse país. Inúmeros protestos contra as precárias situações de vida em um país onde as pessoas já recorrem a "biscoitos" de barro para saciar a fome já foram alvos da repressão das tropas da ONU, além de haverem graves denúncias de massacres, assassinatos e inclusive estupros.
Nada como uma tragédia para aumentar a ganância capitalista
Esse quadro de miséria e violação da autodeterminação do povo haitiano se agravou ainda mais no início de 2010, quando o país foi atingido por um terremoto que deixou um saldo de mais de 250 mil mortos, além de 1,5 milhões de pessoas desabrigadas e considerável destruição de sua já frágil infraestrutura.
Não bastasse toda a tragédia que resultou em mortos, feridos, desabrigados e destruição de infraestrutura, o terremoto justificou um fortalecimento da ocupação, que se manifestou não apenas em um aumento no número de soldados da MINUSTAH como o retorno da presença direta dos EUA em solo haitiano, que, após o terremoto enviou em torno de 10 mil soldados ao país, passando a ocupar aeroportos, portos e demais pontos estratégicos de comunicação no país.
Passados dois anos do terremoto, mais de 500 mil haitianos ainda estão desabrigados, (sobre)vivendo em acampamentos com condições precárias, parte expressiva dos escombros ainda não foi removida, a cólera segue ceifando a vida de milhares de pessoas, a maioria da população segue desempregada ou subempregada, dentre inúmeras outras tragédias que poderíamos citar.
Mas, tamanha dor e sofrimento se transformaram em um grande negócio. As "ajudas humanitárias" que visam "reconstruir" o país, operam muito mais como um espetáculo midiático para engrandecer os "doadores", uma vez que não são orientadas no sentido de combater os problemas estruturais do país, focando apenas em questões emergenciais.
Desgraçadamente, a maior parte destes recursos não chegam à população haitiana pois acabam por financiar os altos salários dos funcionários da ONU e ONGs além de financiar sua infraestrutura e, claro, fazer propaganda de seus "grandes feitos" e assim solicitar mais doações.
Uma paz de cemitério e uma reconstrução para os de cima
A paz e a reconstrução que tanto propagam para o Haiti está longe de ser a que aspira a esmagadora maioria de seu povo oprimido. Trata-se da famosa paz de cemitérios. Uma paz e reconstrução para ampliar ainda mais o lucrativo negócio das maquiladoras, zonas francas de produção onde os trabalhadores recebem salários miseráveis, não possuem direitos e são vigiados por seguranças armados enquanto trabalham.
Maquiladoras estas que se propagam ano após ano no país com a mão de obra mais barata do continente (por sua vez, o país mais pobre do continente), sendo um grande negócio para empresas como Levis, Wrangler e Walt Disney. Tudo isso com um excelente cão de guarda, a MINUSTAH, que desde o início da ocupação não se exime em reprimir manifestações populares e perseguir, prender e torturar lideranças populares. Trata-se de mais um, dentre muitos fatores, que desnudam o verdadeiro caráter do suposto governo democrático e popular, antes encabeçado por Lula e hoje por Dilma, ambos do PT. Também evidencia, mais uma vez, o caráter das FFAA brasileiras, que pelas palavras do general Heleno, ex primeiro comandante militar da MINUSTAH e hoje na reserva, se vangloria de terem aprendido métodos úteis no Haiti a serem empregados nas favelas brasileiras.
Este ano, onde se cumprem 08 desgraçados anos de ocupação, repressão e saque deste sofrido povo cabe não somente a nós, anarquistas organizados na FAG, mas a todas as forças populares e de esquerda, nacionais e internacionais, denunciar este massacre imperialista e nos solidarizarmos efetivamente com o povo haitiano e sua resistência.
Solidariedade ao povo haitiano!
Pelo Socialismo e Pela Liberdade!
Não tá morto quem peleia!
Federação Anarquista Gaúcha