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paremos-a-transfobiaAmérica Latina - Transexualidade - [Kim Perez] O nome travesti é um nome de batalha usado pelas trans que trabalham na prostituição na América Latina, na Espanha e em Portugal.


Na Espanha, foi substituído pelo nome "transexual" pelo ativismo de Transexualia, associação que iniciou a união das prostitutas trans, desde 1987. "Todas somos transexuais", foi o lema que se generalizou. Entretanto, comercialmente, profissionalmente, continua sendo o único lema utilizado. Na América Latina, a preferência foi por salvaguardar o nome "travesti", de modo que adquiriu um sentido desafiador e transgressor de todas as convenções.

"Eu sou travesti", pode-se dizer com alegria e orgulho. A palavra, procedente da França, é a primeira utilizada para falar da transexualidade. Foi a primeira palavra que encontrei e usei com orgulho, até 1964. Desde 1950 pelo menos se usava nos elegantíssimos cabarés de Paris, como o Carrousel, ou Chez Madame Arthur (estive no Carrousel por uma noite).

Na marginalização da América Latina, unindo a pobreza e a prostituição como único meio de trabalho, este nome se tornou numa bandeira para muitas para afirmar sua identidade acima de tudo, enfrentando a perseguição policial quase diária, aos assassinatos, às drogas, à AIDS, e às próprias convenções sociais sobre o sexo.

Neste sentido, supera toda a marginalidade para aludir a quem afirma sua identidade e o direito a diferença acima de toda a repressão, dando sem pretender um novo sentido para a palavra dignidade, que soa paradóxica ao encontrar-se na mais absoluta marginalidade, "as últimas das últimas" (ainda que "os últimos são os primeiros", precisamente pela purificação que lhes dão seus sofrimentos ao ter que enfrentar a quase tudo e com todos: família, emprego...).

Muitas travestis se tornam belíssimas, seguindo a estética da mulher fálica, a mulher plus, que deriva de um arquétipo inquietador de todas as convenções, por razões pessoais ou sobretudo profissionais, comerciais. A dona de uma pensão de artistas de Granada aconselhava a uma amiga minha, lindíssima, para que não se operasse. "Se se operar, não terá mais diferença nenhuma", com as outras mulheres, não terá vantagem comercial para aproveitar.

Por isso, a maioria das travestis não se operam os genitais, sobretudo enquanto trabalham; é verdade que encontram uma grande clientela entre os homens, que portanto encontram nelas suas fantasias eróticas mais fortes e freqüentes; ao olhar uma página de anúncios ou massagens em qualquer jornal, na Espanha, encontramos mais de dez por cento dos anúncios com a palavra travesti, o que sugere que ao redor de dez por cento dos homens têm fantasias com elas suficientemente intensas para pagar profissionais para cumprí-las.

As travestis são batalhadoras por necessidade. Com o nome de Las Carolinas, foram as protagonistas da verdadeiramente mítica primeira manifestação gaylesbitrans da história em Barcelona em 1931, por derrubar um mictório onde re reuniram com soldados; contada por Jean Genet, encontrou sua dimensão portanto na literatura universal; e as travestis foram secretas provocadoras de Stonewall, em 1969, por Sylvia Rivera, porto-riquenha que então teria uns vinte anos, mais jovem que eu, mas já falecida; me encontrei com ela em Bolonha, em 2000.

Por tudo o que digo é lógico que agora lutamos pela concessão do Premio Nobel da Paz às travestis e geral e para as da América Latina em particular, porque estas sofrem a diferença entre uma margem de liberdade que lhes permite sair para à rua para trabalhar, mas as submete a uma repressão exasperada, que as leva com muita freqüência à morte. Tenho que me lembrar, como se fosse um mantra, que em Quito, ao sair para a rua, têm o costume de fazer uma cruz nos azulejos das calçadas "para que não tenham medo da morte".

Por isso é necessário um Prêmio mundial como o Nobel da Paz, e não menos, porque são um símbolo de dignidade humana e não de vergonha; na convivência na dignidade se baseia a paz; e também para que se estabeleça de uma vez a paz entre elas e seus poderosos inimigos, a quem elas não gostariam de enfrentar mas que se enfrentam com elas até as suas mortes. Só o anúncio desta petição, no momento que chega aos meios daquele continente, provocará uma comoção nos estratos mais conservadores, que se verão confrontados com seus preconceitos mortais e sua consciência; e nas próprias travestis gerará um respiro e a sensação de que se começa a compreendê-las. Porque, como também disse minha amiga Sonia, cigana, de Sevilha, tendo sofrido tudo o que se pode imaginar, "mas sou mulher".

Kim Perez é uma professora aposentada, presidente da Asociación de Identidad de Género de Andalucía e ativista histórica pelos direitos da população transgênero na Espanha.


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