O PESO POPULAR
Interessante e fundamental a discussão sobre a poupança em dólares ou em pesos, que um importante comunicador como Víctor Hugo Morales põe em um novo cenário e a Presidenta coroa, recolhendo a luva e definindo uma batalha cultural.
Antes de tudo: uma batalha cultural remete a tentativa de modificar costumes que tinham vigência em certo âmbito e que se mantém inercialmente apesar de o âmbito ter mudado. Ou seja: o que chamamos cultura é um conjunto de comportamentos adaptativos a certa estrutura social e econômica, que nos permite em alguns casos sobreviver e em outros casos ter projetos positivos.
A mudança de cultura ocorre como dinâmica de nova sintonia, quando a estrutura muda. Tratando-se de processos sociais massivos e complexos, está claro que a inércia tem uma grande importância. Isto é: as coisas podem estar mudando e os cidadãos podem ter uma percepção variável sobre essa mudança, seja porque não têm clara a direção ou não confiam em seu caráter irreversível, logo, não modificarão suas condutas, ou seja, sua “cultura”.
Usar o dólar como refugio de valor foi, ao longo da história argentina do último meio século, uma clara conduta defensiva frente à instabilidade do futuro; a certeza de que a poupança em pesos se deteriorava frente à inflação; a convicção verificada de que uma desvalorização periódica daria ao dólar um poder de compra superior ao do momento da aquisição original.
Essa conduta se massificou à medida que se sucederam as crises e a macro desvalorização de 2002 a converteu quase em lei moral.
Pelo dito, para mudar essa conduta, previamente há que mudar o cenário. Isso aconteceu? Parcialmente. Vejamos:
- Mais além do belicismo verbal dos liberais e da dura prédica de alarmistas de toda cor e pelo, a instabilidade de uma economia que cresceu oito anos seguidos a uma média de mais de 7% anual, com um Banco Central capaz de aguentar qualquer ataque especulativo, não é nem comparável com qualquer período anterior.
- A desvalorização brusca não é um fato esperável, a partir de uma administração cambial que obteve saldos comerciais externos muito positivos, mantendo uma lógica de aumento pautado da paridade. Com um horizonte que marca uma queda importante das despesas com a dívida pública externa em 2013 e 2014, não há razão alguma para imaginar que as autoridades do BCRA deveriam mudar de instrumento.
- A debilidade está na forma de manter o valor. Um estudo recente, do qual lamento não ter a fonte, mostrou que comparando investimentos desde 2003 até hoje, quem poupou em dólares, aumentou 100% seu equivalente em pesos. Mas se houvesse investido em prazo fixo aumentaria 173%. E se tivesse investido na Bolsa, segundo o índice Merval, aumentaria 400%.
O que eu acho que esse trabalho não disse é que, em termos de poder aquisitivo concreto, as duas primeiras opções representaram uma perda, só que o prazo fixo menor que o dólar. Estimo que isso seja o que o cidadão comum percebe e por isso não sai de sua cultura inercial, metendo os dólares embaixo do colchão, apesar de não se beneficiar. Joga com uma carta só: a desvalorização que não virá.
Há uma pergunta quase óbvia: E por que o cidadão comum não investe em ações, cujo resultado de médio prazo mostrou e mostra um lucro com respeito à inflação?
Por um par de razões. A primeira é que se trata de um mecanismo pouco conhecido e manejado de maneira restrita e concentrada, ainda, pelos grandes bancos. A segunda é porque na Bolsa argentina são cotadas apenas um punhado de empresas, a maioria grandes corporações, em cuja política o poupador que pensa em refúgio de valor, tem tanto ou mais desconfiança do que sobre a política econômica. Pode-se aprofundar a investigação das causas, mas o certo é que a década passada mostra que a produção teve e tem muito maior rentabilidade que os investimentos passivos e que os poupadores se inclinaram muito pouco em acompanhar através da Bolsa.
Do conjunto do exposto se desprende quase como se fosse um silogismo, o seguinte:
- Para estar em condições de livrar a batalha cultural proclamada, o governo deveria fazer algumas coisas mais, que mostrem que o cenário efetivamente mudou e por isso devem adaptar-se às condutas.
- A primeira – ainda não mencionada aqui – é frear a inflação indo a sua causa real e não a sustentada pelos economistas tradicionais: o uso de seu poder por parte dos formadores de preços. Parece claro que o Governo, em todos os setores onde há monopólio ou oligopólio, que são vários e em setores chave, deve estabelecer uma política muito mais rígida de autorização de preços.
- A segunda é construir uma opção de investimento para o cidadão médio, que a nível subjetivo lhe permita perceber que manterá de verdade o valor de sua poupança. Esta opção não é outra que a criação de uma Corporação para o Desenvolvimento Nacional, sociedade por ações, que possa ser, a título de exemplo:
- Sócia investidora na YPF para seus desenvolvimentos futuros, com segurança de alta rentabilidade.
- Sócia no Polo Petroquímico de Bahía Blanca para as necessárias ampliações de polietileno e polipropileno.
- Sócia controladora de uma refinaria de cobre, licitando a associação em minoria com uma empresa que entre com a tecnologia e a operação.
- Dona e operadora de um conjunto de pequenas indústrias lácteas que abasteçam todo o norte argentino, que hoje recebe esse alimento de centenas de quilômetros.
Menciono estes quatro exemplos quando podemos listar dezenas, para mostrar que esta Corporação deveria ser o símbolo – ou sinônimo – da produção industrial, no muito grande e no pequeno associado aos consumos locais, que hoje não tem atores só pelo grau de concentração da economia, que chega até a produção e distribuição de alimentos básicos.
Uma decisão como a apontada seria – aí sim definitivamente – demonstrativa de uma mudança de cenário que permitiria induzir a transferência da poupança para o capital produtivo, com rendas reais positivas. Talvez alguém que leia isto estará em condições de fazer uma pesquisa entre pequenos poupadores em dólar, perguntando se não gostariam de serem donos de um pedacinho da YPF. Seria interessante que conhecêssemos as respostas.
Bem-vinda a batalha cultural. Para enfrentá-la em condições de ganhar, bem-vinda a mudança estrutural, rumo ao peso popular voltado à produção.
Tradução: Libório Junior
