Durante os encontros já realizados (Terceiro Pleno do Comitê Central do Partido Comunista, Reunião Ampliada do Conselho de Ministros e segunda convocação anual da Assembleia Nacional), dois assuntos, intimamente relacionados, parecem centralizar a atenção e as preocupações dos dirigentes cubanos, imbuídos do atual processo de mudanças empreendidas no país: a luta pela eficiência na economia e a guerra contra uma – ao que parece – muito propagada corrupção administrativa.
A insistência em trabalhar nesses dois temas, cujas fronteiras costumam ser tão próximas quanto vulneráveis, foi e é impulsionada pelo presidente Raúl Castro como urgências, não para uma estratégia de mudanças, mas para a própria subsistência do sistema político estabelecido na ilha. Em seu discurso na Assembleia Nacional, chegou, inclusive, a qualificar a corrupção como principal inimigo do processo cubano, mais perigoso – a seu ver – do que as atividades dos adversários de sempre e dos grupos de oposição, dentro e fora do país. Não é de estranhar, então, que a necessidade de controle econômico, a luta contra as negligências e a reativação das estruturas produtivas tenha sido um leitmotiv em cada uma das intervenções do governante, que parece patentear seu estilo de governo com a proposta de fazer da economia sua principal luta política.
Nos últimos meses, uma série de medidas incentivou esta linha, e sobretudo eliminaram travas do emaranhado social cubano que facilitam algumas das atividades cotidianas das pessoas: desde a ampliação e liberação dos processos de compra e venda de veículos e casas até a criação de um sistema de créditos bancários para a construção de moradias pelos cidadãos, a baixa de preços dos ainda muito caros materiais de construção e o incentivo à divisão das chamadas terras ociosas, entregues em sistema de usufruto a quem desejar trabalhá-las, alguns produtores privados para os quais haverá mais território sob seu controle e possibilidades de construir casas nas novas terras, algo que não era contemplado no início do processo de entrega.
De modo paralelo à urgente reforma econômica, o governo cubano fez outros movimentos propriamente políticos que tiram alguma pressão do ambiente (mais diante da proximidade da visita do papa Bento 16 à ilha), com a anunciada medida de indultar quase três mil presos, cubanos e estrangeiros, condenados por diferentes crimes, em muitos casos por razões humanitárias e de saúde. Porém, a mais esperada das modificações políticas, a anunciada flexibilização da restritiva lei migratória, ainda não se concretizou, embora o próprio presidente Raúl Castro insista em sua próxima mas paulatina liberalização.
O mais curioso é que as preocupações da estrutura dirigente cubana parece estar, pelo menos em essência, muito em consonância com as penúrias das pessoas que gastam no país os dias de suas vidas: porque a economia, o dinheiro e a corrupção são três de suas mais angustiantes preocupações, considerando sua cotidiana e ampla presença.
Os dias natalinos, com suas celebrações mais ou menos recuperadas pelos cubanos, também colocaram em tensão máxima as estreitas e críticas economias familiares. A sustentada tendência ao aumento – ou, quando menos, ao estancamento – dos preços dos produtos agropecuários ou o salto para cima das tarifas de muitos serviços, vai em ritmo mais acelerado do que os aumentos salariais ou as possibilidades de encontrar remédio no trabalho por conta própria. Por isso, em uma proporção cada vez mais preocupante, as pessoas se encontram diante da realidade de que seus salários são sempre mais do que insuficientes para atender suas necessidades. Inclusive, há grupos sociais e etários para os quais já se fala de uma necessária subvenção individualizada, pois a situação de idosos e pessoas sem possibilidades de obter ganhos extras além do salário (seja por remessa enviada do exterior, seja pela possibilidade de realizar algum trabalho produtivo extra) se torna cada vez mais crítica.
Embora o governo repita que o processo de mudanças será feito com calma e cautela para evitar novos erros, a realidade de muitos cidadãos pede maior rapidez na busca de soluções para suas conjunturas individuais e familiares. Muitas dessas pessoas carregam sem seus ombros as carências ingentes em que viveu o país durante a primeira parte da década de 1990 e, ainda hoje, veem como um luxo não a possibilidade de ter um telefone celular ou passar férias em um hotel, mas de comprar um par de sapatos e alimentar-se de maneira suficiente. E, embora seja certo que a pressa pode induzir a equívocos, também é – talvez mais – que dez anos vividos na carência e absoluta tensão econômica pesam muito mais do que dizia o velho tango: por que 20 anos é muito? Sobretudo em um país onde a polarização entre os que têm algo e os que têm menos se torna evidente dia a dia. Para esses que têm menos recursos, a economia, com independência da política, está se convertendo em algo tão tangível como a esmagadora diferença entre a pobreza compartilhada e o tétrico avanço da miséria. E muitas vezes apenas lhes resta a alternativa de orar, à espera de um milagre da virgem.
* Leonardo Padura Fuentes é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para uma dezena de idiomas e sua obra mais recente, La Neblina del Ayer, ganhou o Prêmio Hammett de melhor novela policial em espanhol de 2005.
