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maduroAmérica Latina - PCO - Por que os governos de direita tradicionais não são suficientes para impor a política do imperialismo? O que mostram os exemplos do Chile, México e Colômbia


As recentes eleições na Venezuela deixaram claramente expostos os objetivos da direita pró-imperialista, que atua como uma extensão do imperialismo – chegar ao poder a qualquer custo para entregar tudo o que for possível para os monopólios. O imperialismo tem sofrido fortes derrotas no Oriente Médio, enfrenta o ascenso das potências regionais, o ressurgimento do militarismo fascista japonês e o aprofundamento da crise capitalista nos países desenvolvidos e em escala mundial. Os lucros têm caído no setor financeiro, o coração da economia capitalista parasitária, na indústria petrolífera, que ao igual que acontece com a especulação com matérias primas em geral enfrenta a queda dos preços, e até no setor de armas. Os repasses bilionários de recursos públicos não são suficientes para sustentar os abutres imperialistas. O tremendo parasitismo impede que a burguesia mundial elabore uma nova política, como ela o fez com okeynesianismo e, quando este se esgotou, com o neoliberalismo.

O imperialismo norte-americano precisa impor uma nova política na América Latina, o pátio traseiro, com o objetivo descarregar uma parte maior do peso da crise na região. Isso significa atingir um novo ponto de equilíbrio dos regimes para favorecer o saque e aumentar os ataques contra as massas. O nacionalismo burguês que tomou conta da região é insuficiente e corre o risco de ser transbordado pelo ascenso popular conforme, possibilidade que ameaça tornar-se realidade - na Bolívia, foi fundado um partido dos trabalhadores sob a pressão dos mineiros contra o governo Evo. Para acabar, ou reduzir até onde for possível, os gastos sociais a burguesia precisa destruir as organizações de massa. A superdepredação dos recursos naturais deve ser estendida – gás e petróleo a partir do xisto, agronegócio com maior quantidade de agrotóxicos e transgênicos, botar fogo no Amazonas e outros biomas para facilitar a exploração de minério e obter energia de graça. A superexploração dos trabalhadores deve ser aumentada. Até grupos caudilhistas como o de José Sarney, por exemplo, representam um custo muito alto, principalmente devido ao controle do Ministério de Minas e Energia. Tudo o que for possível deve ser direcionado para os monopólios – essa é uma questão de vida ou morte para o imperialismo.

Os governos de direita enfrentam a resistência das massas e mostram sinais de esgotamento. No Chile, o governo de Sebastián Piñeira não consegue se manter em pé e deverá ser derrotado pela Concertación nas eleições de novembro. No México, Peña Neto, imposto no poder no final do ano passado, acelerou o passo na aplicação de mais neoliberalismo, mas enfrenta o protesto popular. Na Colômbia, Manuel Santos tenta dar uma saída à crise ampliando o chamado agronégocio e a indústria extrativista para o que depende, em primeiro lugar, da paz com as guerrilhas.

Os governos de direita têm dificuldades para impor a política imperialista em larga escalada. O senso de urgência do imperialismo coloca à ordem do dia o avanço para uma política de força que lhe permita viabilizar a política. Os principais países da região estão no foco. Os recentes acontecimentos na Venezuela revelaram que a direita busca provocar rachas no nacionalismo, atraindo os setores mais à direitista, cujos privilégios estão ameaçados pela crise, fortalecer a influência sobre os órgãos mais reacionários dos governos (forças armadas e judiciário) e estruturar uma base militante reacionária a partir dos setores mais atrasados da população, principalmente a pequeno-burguesia.

Chile: a retomada do ascenso da mobilização estudantil

No dia 11 de abril, mais de cem mil estudantes universitários e secundaristas, pais e professores voltaram às ruas de Santiago, retomando as grandes manifestações e tomadas de colégios, que começaram em junho de 2011, na luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade. A polícia (carabineiros) reprimiu com violência, utilizando jatos d'água, bombas de gás lacrimogêneo e pistolas de tinta, deixando um saldo de mais de 100 manifestantes presos, entre os quais 24 menores, e dezenas de pessoas feridas. Entre as principais palavras de ordem estavam "A educação não se vende, se defende", "Me declaro inocente. Eu não votei em Piñera" e "Já não acredito em você Michelle."

A manifestação aconteceu no início da campanha presidencial para as eleições que acontecerão em novembro e na véspera das deliberações do Senado sobre a destituição do ministro da Educação, Harald Beyer.

A Concertação, à cabeça da frente popular, tenta canalizar os protestos para a via eleitoral. A ex-presidente Michelle Bachelet, do PS, derrotada por Piñeira nas últimas eleições, lançou a sua candidatura e colocou como ponto central da campanha a educação, apesar dos governos da Concertación (1990-2010) terem mantido intacto o regime de Pinochet para a educação e em geral para a economia chilena.

Bachelet enfrenta a rejeição dos estudantes e de importantes setores da população. Em 2006, os secundaristas tinham promovido fortes manifestações contra o governo que levaram à destituição da ministra da Educação, Yasna Provoste, em 2008. Mas o desgaste da direita é tão grande que corre o risco do voto de protesto levá-la a uma derrota já no primeiro turno. As eleições municipais de 28 de outubro mostraram o enfraquecimento da direita e a crise do regime de conjunto. O abstencionismo alcançou 58%. Em Santiago, Concepción e em várias outras cidades importantes, os candidatos a prefeitos (alcaldes) vinculados à ultradireita foram derrotados. A Concertação passou de 147 prefeituras em 2008 para 170.

Chile: O ascenso dos trabalhadores

As mobilizações têm se expandido além do movimento estudantil e dos indígenas mapuches. No dia 9 de abril, os trabalhadores da principal empresa do País, a Codelco, a primeira produtora mundial de cobre, responsável por 33% da oferta mundial, paralisaram as atividades durante 24 horas. A "greve de advertência", arrastou as mineradoras privadas, inclusive a maior delas, a Mineira Escondida, da multinacional anglo-australiana BHP Billiton. Pararam 30 mil mineiros convocados pela FTC (Federação dos Trabalhadores do Cobre) sob a forte pressão dos trabalhadores, radicalizados após a morte de um mineiro, no dia 23 de março, na mina Radomiro Tomic da División Norte.

Entre as demandas estão a manutenção do plano de saúde no setor estatal e o fim dos acidentes de trabalho, um plano de aposentadorias digno (que hoje representa apenas 40% do último salário), maior estabilidade laboral, fim da terceirização e o aumento dos salários, principalmente para os terceirizados que recebem 70% a menos que os efetivados, e "uma nova política nacional mineira" que considere o aumento do valor agregado ao invés de exportar matérias primas, a renacionalização total do cobre e do lítio, e destine os lucros para os programas sociais.

O temor da burguesia foi às alturas. O ministro da Economia, Pablo Longueira, estupefato devido a tratar-se do setor onde os operários são melhor remunerados, chamou imediatamente ao diálogo. As entradas provenientes do cobre compõem o grosso da economia chilena.

A sanguinária ditadura militar de Pinochet foi um dos primeiros laboratórios de neoliberalismo em escala mundial, produzindo resultados desastrosos. Hoje a burguesia tenta apresentar o Chile como um dos modelos da eficiência do capitalismo, o que se encontra muito longe da realidade. A economia aberta de par em par à especulação ameaça colapsar devido à queda do preço do cobre nas bolsas futuro especulativas – em 2011, chegou a US$ 10.190 a tonelada e, após ter caído para US$ 6.000, hoje se encontra próximo aos US$ 7.000 em tendência decrescente. Os custos de produção aumentaram 60% entre 2010 e 2012, contra 30% na média global. O custo para produzir uma tonelada de cobre pela Codelco é de US$ 3.604, o que é muito alto para atender os altos lucros que os especuladores buscam, principalmente no caso de uma depressão maior dos preços provocada pelo aprofundamento da crise capitalista na China, que é responsável por 40% da demanda global. Outros países produtores, onde os custos são inferiores e a mão de obra é semiescrava ficaram no foco das multinacionais e deverão ser priorizados – RDC (República Democrática do Congo), Zambia e Mongólia.

Outra das lutas operárias de grande importância que aconteceu recentemente foi a dos trabalhadores portuários, que estourou no Porto de Angamos, localizado em Mejillones, no norte do País, e que enfrentou forte repressão policial. A burguesia mais uma vez ficou apavorada devido a que Mejillones é responsável pela exportação de 80% do cobre. A forte repressão policial inicial deixou um trabalhador ferido, o que acabou levando à solidariedade das centrais sindicais (CTC, FTC, CUT, FMC), sob a pressão dos trabalhadores. A prisão de um dirigente da FMC e a demissão de vários trabalhadores aumentou a radicalização e levou à realização de um paro nacional convocado pela UPN (União Portuária Nacional).

No dia 15 de março, vinte e oito mil trabalhadores da Forestal Arauco, do grupo Angelini (um dos mais favorecidos pela ditadura militar) entraram em greve por aumento do salário e contra as terceirizações. A greve foi detonada após os carabineirosassassinarem um operário a queima roupa para retomar uma rodovia que tinha sido bloqueada. No Chile, há mais de 130 mil trabalhadores no setor florestal.

A luta dos trabalhadores chilenos está evoluindo para um enfrentamento em grande escala contra o regime, a submissão da economia à especulação financeira, as terceirizações e o arrocho salarial. Os trabalhadores devem ser chamados a organizar-se pela base num partido independente de todos os setores da burguesia.

México: uma nova onda neoliberal

O México tem sido impulsionado nos últimos cinco anos pelo imperialismo norte-americano como um mercado manufatureiro em substituição ao mercado asiático, onde os salários não param de subir. O peso no total das importações dos EUA passou de 7% em 2007 para 14%, em detrimento dos produtos chineses. Mas esse modelo também se esgotou devido ao aprofundamento da crise capitalista e, por esse motivo, o imperialismo foi obrigado a impor um direitista reciclado do antigo PRI (Partido Revolucionário Institucional), Peña Nieto. O objetivo é atacar em maior escala os direitos trabalhistas e os programas sociais e entregar, de mãos beijadas, os restos das empresas públicas, a começar por Pemex (Petróleos Mexicanos).

Neste ano, as exportações totais têm caído pela primeira vez desde 2009. A exceção foram as exportações de automóveis, mas é óbvio que não conseguirão se sustentar devido à queda da demanda. As exportações de petróleo caíram quase 10%, devido aos EUA, destino de 85% da produção, terem aumentado a produção a partir do xisto; os minerais caíram mais de 21% e os produtos manufaturados 1,5%. No sentido contrário, o lucro do sistema financeiro, dominado por sete bancos, aumentou 20,6%. A pobreza aumentou em 1,5 milhões de pessoas nos dois últimos anos e atinge 48% da população, enquanto os miseráveis somam 32%; 60% da mão de obra é informal.

A "saída" para a crise com um novo choque neoliberal foi consensuada com o PAN (direita) e o PRD (centro-esquerda) no chamado "Pacto México" assinado em dezembro. Sob a demagógica prisão da ultra-burocrata Elba Esther Gordillo, dirigente do sindicato dos professores se estabeleceu uma campanha calcada, como é a norma, na luta contra a corrupção e pela "modernização", em primeiro lugar, das telecomunicações, mas que tem como principal objetivo a energia e a reforma fiscal – basicamente, a entrega integral de Pemex aos monopólios (disfarçada com muito demagogia para conter a oposição) e a eliminação dos subsídios sobre os medicamentos e os alimentos. Estas últimas foram deixadas para depois de julho quando acontecerão eleições locais. Sob o suposto combate ao crime a nova Gendarmaria criou uma nova força repressiva, mais ágil, que facilmente poderá ser direcionada contra os movimentos sociais como aconteceu no Brasil com a Guarda Nacional.

Colômbia: mais agronegócio e mineração depredadores como saída à crise

No dia 9 de abril, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar o processo de paz. A manifestação foi promovida pelo grupo ligado ao presidente Manuel Santos.

O aprofundamento da crise capitalista enfrenta dificuldades para fechar as contas públicas e conter o avanço das mobilizações populares. O crescimento econômico caiu nos últimos dois trimestres, de 6% em 2011 para 2,1%. O governo liberou US$ 2,7 bilhões para garantir os lucros dos capitalistas e reduziu a taxa básica de juros para 3,25%, a menor em América Latina.

A escalada militar contra a guerrilha e dos ataques contra os movimentos sociais, enquadrada no Plano Colômbia, iniciado no ano 2000, se esgotou e impôs uma conta enorme nos gastos públicos – US$ 1,6 bilhões de ajuda dos EUA e um exército de 500 mil homens, que consome 7% do orçamento público. Hoje, somente no estado de Arauca, há 20 mil soldados destacados para proteger os oleodutos.

O imperialismo norte-americano passou a impulsionar o chamado agronegócio e a indústria extrativista (ouro, hidrocarbonetos e carvão) como saída à crise, o que, além da necessidade da paz com as guerrilhas, implicou na reacomodação nos grupos de poder, desprivilegiando o setor da burguesia agrária ligado ao latifúndio mais arcaico, da qual o ex presidente Álvaro Uribe é um dos principais representantes políticos. Uma nova "república da soja" e extrativista passará a concorrer com o Brasil e a Argentina, com a grande vantagem de ter acesso direto ao Pacífico – obviamente, uma fabulosa fonte de lucro para os monopólios.

As concessões da burguesia para as FARC e os camponeses só podem ser menores e com a tendência a serem expropriadas no futuro, pois esse é o modelo do agronegócio e do extrativista depredador. O novo ascenso das massas e novos choques com a burguesia serão inevitáveis no futuro.


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