Seu protagonismo político em defesa de seus direitos e dos direitos da Mãe Terra, de maneira progressiva, tem levado esse movimento a transcender do nível comunal até enfrentar o modelo hegemônico global que está em crise.
Herdeiro de civilizações milenares, o movimento indígena de Abya Yala tem conservado sua espiritualidade como filho da Mãe Terra; defendendo seus territórios da contaminação; atualizando seus saberes e conhecimentos ancestrais para enfrentar os novos desafios impostos pela modernidade; mantendo suas próprias formas de organização política.
O movimento indígena entende o mundo ocidental e responde a este com nossas próprias propostas. A cultura ocidental recém começa a levar isso em consideração, quando todos seus paradigmas –livre mercado, Estado Nação, democracia representativa, crescimento e desenvolvimento- estão em aguda crise e buscam respostas novas em nossos saberes e práticas ancestrais de diálogo e harmonia com a Mãe Terra, porque suas alternativas já não conseguem convencer sequer a seus próprios Estados.
Inclusive, alguns desses Estados incorporam a seus discursos os paradigmas centrais dos povos indígenas: os Estados Plurinacionais e o Bem Viver-Viver Bem. Porém, trata-se somente de discursos ocos, porque persistem no modelo econômico neoliberal, incompatível com a realização prática de nossos paradigmas.
Na construção de propostas alternativas à globalização neoliberal, o movimento indígena não está sozinho; tece alianças com outros movimentos sociais: de mulheres, de jovens, de ambientalistas e outros que também questionam o modelo dominante.
Assim, com passos seguros, os povos indígenas e suas organizações conseguimos avançar no contexto global: participamos nos espaços internacionais de discussão e fazemos com que nos escutem. Para isso, fortalecemos nossas organizações; nos capacitamos; formamos novas lideranças, com ênfase nas mulheres e nos jovens indígenas.
E nesse constante caminhar, utilizamos todas as ferramentas tecnológicas para incidir e convencer. Não somos saudosistas e nem bárbaros selvagens; muito menos terroristas, como nos estigmatizam os Estados e as corporações multinacionais. Somos filhos da Mãe Terra que amamos e cuja vida defendemos.
O processo que enfrentamos é muito duro porque os Estados entendem a inclusão como sinônimo de assimilação, que é outra forma de extermínio cultural, e não como reconhecimento da diversidade. Por isso, não desenham políticas públicas interculturais em saúde, educação, justiça, produção econômica. Por isso, carecem de políticas frente à mudança climática; não implementam sequer seus próprios acordos, adotados na Rio+20, e somente se fazem presentes em nossos territórios para exercer a repressão e entregar os bens da Mãe Terra para explorá-los e destruí-los.
Enfrentamos também a voracidade desses monstros com nome e sem rosto: as corporações multinacionais e sua voracidade pelos bens naturais albergados por nossos territórios, traduzida na imposição de megaprojetos extrativos. Corporações que contam com um imenso poder econômico que lhes permite vulnerar nossos direitos impunemente. Há tempos sequestraram os Estados e hoje sequestraram também os organismos internacionais; por isso, não há mecanismos de salvaguarda nem de fiscalização de suas atividades; por isso, impõem seus interesses econômicos e suas normas na Organização Mundial de Comércio e em seus Tratados de Livre Comércio. Sempre com o intuito de apropriar-se de nossos territórios, de nossos saberes ancestrais, de nossos bens naturais.
E nesse duro processo, enfrentamos também a criminalização do exercício de nossos direitos e a militarização de nossos territórios. Vemos tudo isso atingir os Nasa, os Embera e outros povos em Cauca (Colômbia); no Chile, com os Mapuche; na Guatemala, com os Maya, Quéchuas, Aimaras e com os Kichwa, no Peru, na Bolívia e no Equador. Há um rechaço crescente à criminalização e à militarização em todo o continente, porque os Estados não garantem a segurança em nossos territórios, onde forças regulares e irregulares pelejam guerras que não são nossas.
Para enfrentar todos esses desafios, os povos indígenas reivindicamos nosso direito à comunicação, que consideramos também uma ferramenta estratégica para a incidência. E demandamos aos meios de comunicação massiva que nos incluam em sua agenda, não como folclore, mas em nossa real dimensão, para que deixem de nos estigmatizar como "arcaicos" e saibam que, ao contrário, temos muito que oferecer para garantir o futuro de todas/os.
No dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, os povos indígenas e suas organizações continuamos debatendo e contribuindo para que na Conferência Mundial de 2014 os Estados discutam nossa agenda e não àquela que lhes é imposta por países poderosos e pelas corporações multinacionais.
No dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, os povos indígenas e suas organizações continuamos debatendo e contribuindo, para tornar realidade os Estados Plurinacionais e o Bem Viver-Viver Bem; para insistir no reconhecimento dos Direitos da Mãe Terra e, a partir daí, construir um novo paradigma civilizatório que garanta a paz e a equidade.