Não foram poucos os filmes latino-americanos que fizeram sucesso no badalado Festival de Cannes, cuja 65a edição terminou neste domingo (27/05), com a entrega dos prêmios de suas diferentes seções. Os latinos, de participação “obrigatória” no evento, segundo declarou o diretor Thierry Frémaux na coletiva de abertura, estiveram representados da competição oficial às exibições especiais, cativando tanto a crítica quanto o público.
O grande destaque vai para “Después de Lucía”, do mexicano Michel Franco, que conquistou o troféu principal da mostra “Um certo olhar”. O filme, realizado durante uma temporada do diretor no programa de formação de Cannes, o Cinéfondation, conta a história de um pai e de sua filha (papel da Tessa Ia González, irmã mais nova de Gael García Bernal) que recomeçam a vida na Cidade do México após a morte da esposa (e mãe) com dificuldades, já que ela sofre bullying na escola.
De “Um certo olhar”, participaram 20 produções de cineastas de 17 países diferentes. Entre elas, além de “Después de Lucía”, figuraram outras duas latinas de que certamente se ouvirá falar: “Elefante blanco”, novo filme do já consagrado diretor argentino Pablo Trapero (“Leonera”, “Abutres”), estrelado por Ricardo Darín, e “La Playa”, debut em longa-metragem do colombiano Juan Andrés Arango. A história, de temática pouco comum dentro da nova cinematografia da Colômbia, retrata o deslocamento de afro-colombianos da costa do Pacífico para Bogotá, onde são obrigados a passar por um árduo processo de adaptação cultural e social.
Da principal mostra competitiva, com júri presidido este ano por Nanni Moretti – que entregou ao austríaco Michael Haneke (“A fita branca”) sua segunda Palma de Ouro, agora por “Amour” –, saiu premiado o realizador mexicano Carlos Reygadas, famoso por seu estilo sem concessões em filmes “difíceis” e abstratos. “Post Tenebras Lux”, sobre a dicotomia entre a vida no campo e a na cidade, rendeu a ele, um habitué de Cannes, sua primeira palma de melhor diretor – mesmo com as fortes vaias durante a exibição do filme.
A queda de Pinochet na visão de Pablo Larraín
Na Quinzena de Realizadores, mostra paralela de forte caráter autoral, quem chamou a atenção foi o chileno Pablo Larraín, com o primeiro de seus filmes a trazer a ditadura de Pinochet ao primeiro plano do roteiro.
Se em “Tony Manero” e “Post Mortem”, o pano de fundo dos enredos é o golpe a Salvador Allende, em “No”, a história é o fim do governo ditatorial com a realização do plebiscito de 1988. O filme, que tem Gael García Bernal no papel do publicitário que idealizou a campanha pelo “não” à continuação de Augusto Pinochet no poder, levou o prêmio principal da competição, além de elogios do público e da crítica.
Da Quinzena, participaram outros cinco longas-metragens latino-americanos, entre eles “3”, do uruguaio Pablo Stoll (“Whisky”, “Hiroshima”), “La sirga”, do estreante colombiano William Vega, e “La noche de enfrente”, último trabalho do realizador chileno Raúl Ruiz (“Mistérios de Lisboa”), falecido em 2011.
Participação brasileira
Presentes na Quinzena dos Realizadores com os curtas-metragens “Porcos raivosos”, de Leonardo Sette e Isabel Penoni, e “Os mortos-vivos”, de Anita Rocha da Silveira, e na Semana da Crítica (evento paralelo ao festival), com o curta “O duplo”, da brasileira Juliana Rojas, os brasileiros não saíram premiados este ano de Cannes.
Por outro lado, o Brasil foi um dos países homenageados da 65a edição e contou com a exibição especial do documentário “A música segundo Tom Jobim”, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, fora de competição. O país também marcou forte presença no mercado cinematográfico de Cannes, considerado aquele que melhor define a escolha de distribuidores e exibidores, responsáveis pela circulação comercial dos filmes.
Pelo caminho dos prêmios e pelo das vendas, a expectativa, portanto, é que Cannes 2012 garanta a circulação de vários títulos latinos nos próximos meses.
