O problema reside em como se ocultam e camuflam esses interesses e qual é a intenção por trás disso, isto é, a lógica que guia essas ações. Revelar a forma que nos vendem um produto ou uma ideologia é a via para nos protegermos, já que nos permite desentranhar a estratégia de manipulação e os objetivos que pretendem alcançar dita estratégia.
A informação é a camuflagem perfeita da propaganda, a roupagem que melhor oculta a finalidade disciplinar que tem e, como diria Gramsci, a reprodução da ideologia dominante; é uma mercadoria a mais no mercado das audiências. E é graças a este formato jornalístico que os meios de comunicação se protegem detrás de uma máscara de serviço público, porém, nem tudo é informação, nem tudo é jornalismo.
Nas campanhas eleitorais é relativamente fácil desmascarar o que há por detrás da mercadoria "informação" porque é nelas onde os meios de comunicação massivos se mostram mais abertamente como o que são: sujeitos políticos que tomam parte na disputa pelo poder, competidores na luta encarniçada para garantir a reprodução do sistema, aríetes que desimpedem o campo de batalha para facilitar a vitória dos seus senhores.
No caso das próximas eleições presidenciais na Venezuela, que serão celebradas no dia 7 de setembro, as empresas mediáticas espanholas estão se mostrando especialmente ativas. Não se trata somente de interesses específicos com as corporações norte-americanas e latino-americanas afins, mas sim da guerra aberta contra um projeto nacional de recuperação da soberania e dirigido aos mais pobres: a revolução bolivariana. Forma parte da natureza do imperialismo estadunidense e do colonialismo europeu impedir que quaisquer dos processos latino-americanos em curso prosperem. A testemunha disto é a longa guerra contra Cuba que não cessa.
Desde fevereiro os meios de comunicação espanhóis, públicos e privados, fazem campanha contra Chávez e a favor de Capriles.
Não realizamos um exaustivo estudo, mas sem dúvida até a mais superficial revisão pela imprensa e pelos meios de comunicação nos aporta argumentos contundentes para afirmar que desde fevereiro os meios de comunicação espanhóis estão fazendo campanha contra Chávez e a favor do candidato da oposição.
Tal campanha de propaganda que se esconde detrás da aparente informação não foi improvisada. De fato, parte da apresentação das primarias da oposição, construindo de maneira adequada a imagem do triunfador H. Capriles, um homem totalmente desconhecido para o público europeu e, provavelmente, também para o estadunidense. Não foi necessário falar do perfil do presidente Chávez, pois foi suficiente continuar alimentando uma imagem já construída durante anos: populista (término que na Europa é negativo), ditador, agressivo, fanático, dogmático, frívolo, machista etc.
As eleições na Venezuela foram planejadas sistematicamente pelos meios como se fosse uma contenda bélica. Não é que não seja, já que o que está em jogo é precisamente a possibilidade de continuar um processo de hegemonia do povo frente ao domínio da burguesia, mas não cabem dúvidas de que o que nos outros países se descreve como campanha eleitoral, competição entre candidatos etc. aqui [no Estado Espanhol] aparece como enfrentamentos violentos, ou seja, chavismo contra oposição (nesta ordem). A inversão causa-efeito é uma das técnicas de manipulação mais habituais em relação à Venezuela: um enfrentamento que é resultado das provocações, um comentário do presidente Chávez que responde a um insulto ou uma ameaça, se convertem nos meios de comunicação a causa das denuncias da oposição, em vez de um efeito. Não se informa sobre uma campanha, mas sim sobre um enfrentamento Chávez-oposição e, obviamente, se toma partido desde o tiro de partida.
Uma vez eleito o candidato da oposição, é necessário construir a imagem deste em contraposição às características negativas que presumem ao presidente Chávez, e, por outro lado, igualando-lhe ao presidente em todos os méritos reconhecidos – inclusive pela oposição – que ele apresenta.
Temos como exemplo o seguinte perfil que fez o jornal El País no dia 13 de fevereiro: "Henrique Capriles Radonski fala pouco e pausadamente. Quando o faz, move as mãos como se estivesse sustentando um grão de arroz entre o polegar e o índice direito. 'Eu fui o prefeito de todos. Sou governador de todos. E quero ser presidente de todos os venezuelanos, dos que pensam como eu e dos que pesam diferente de mim', disse Capriles no dia 4 de dezembro de 2011".
Nesta descrição está claro que ressaltam a forma de falar "pausadamente", confrontando com a imagem que é projetada de Chávez, falador no sentido muito negativo; ou insistem constantemente na ideia da unidade, repetindo que seria um "presidente de todos", não só dos que votam nele, isto é, acusam implicitamente a Chavéz de governar somente para os chavistas. A descrição de Capriles continua ressaltando o interesse que ele tem pela política desde os 11 anos, sua percepção sobre o desgaste dos partidos políticos, a vocação humanista do partido ao qual pertence, o interesse pelo social "economia social de mercado" e, inclusive, se destaca que dentro da coligação que levou Capriles a ser candidato existem partidos "ex-aliados do chavismo". Tudo isto com o objetivo de camuflar a realidade de um projeto conservador liberal. Outros artigos insistem no "programa de Capriles" e na unidade, ambos os elementos para evitar que o público relacione dito objetivo de uma oposição composta por 21 partidos com a falta de unidade, e cujo único programa é fazer oposição a Chávez. São apresentados os méritos de H. Capriles muito próximos das características fortes do presidente. Claro que às vezes dizem mentiras, outras vezes só se oculta dados e na maioria delas induzem a ideias errôneas.
Não se trata de revisar aqui tudo o que já apareceu até o momento, bastam algumas manchetes dos meios escritos. Todos eles suficientemente ilustrativos da posição elegida pelos meios de comunicação escritos espanhóis para fazer campanha a favor da oposição. No caso do El País, e a linha tradicional que segue este jornal, se opta geralmente por desacreditar Chávez, por semear a dúvida sobre as sondagens que lhe dão vantagem, por insistir no tema da doença – sugerindo, assim, uma incapacidade para seguir governando -, e por reproduzir uma imagem de inseguridade em relação ao presidente.
No caso do El País podemos destacar as seguintes notícias:
- Chávez, Capriles, o prognóstico impossível (14/2/12)
- Chávez insulta o candidato Capriles e o chama para o combate eleitoral (17/2/12)
- A recaída de Chávez leva Venezuela à incerteza (22/2/12)
- O presidente governa Venezuela com controle remoto desde Cuba (02/3/12)
- O chavismo busca relevo para Hugo Chávez (30/4/12)
- Entre a pátria de Chávez e o progresso de Capriles (08/8/12)
No caso do El Mundo, também recorrem à figura do presidente Chávez para afundá-la na imagem previamente construída e que Capriles emergia como um candidato confiável, educado, moderado e com preocupação pelo social, uma imagem que se constrói sempre em oposição a do presidente.
Destacamos as seguintes manchetes:
- A promessa eleitoral de Herinque Capriles: construir 2.000 escolas (21/9/12)
- Capriles desafia Chávez a um debate para o país escute "propostas", não "insultos" (17/9/12)
- O presidente Chávez utilizou a divisão como mecanismo para perpetuar-se (02/9/12)
- Capriles não sabe si o plano de atentar contra ele é 'advertência ou ameaça' (21/3/1)
Para o jornal ABC, de linha editorial ainda mais conservadora e dirigida a um leitor menos atento à atualidade internacional que à nacional, se centra na construção da figura de Capriles, com imagem jovem e dinâmica, atitude empreendedora, com iniciativa e dialogante. A desacreditação do presidente Chávez vem da parte do seu dispêndio econômico, sua beligerância. O jornal dá mostras constantemente de racismo enfocado na origem familiar de Chávez, além de acusá-lo de golpista e anti-democrático.
- Capriles: Chávez "presenteou" a outros países com quase 170 bilhões de dólares (03/9/12)
- Capriles desafia Chávez a um debate prévio às eleições (17/9/12)
- Capriles desafia Chávez para debate (08/9/12)
- Capriles acusa ao Governo de fazer uma 'guerra suja' contra ele (12/9/12)
O artigo top dessa campanha é muito recente, apareceu no dia 22 de setembro com a seguinte manchete "Chávez mobiliza uma rede de comandos armados para controlar uma eventual votação adversa". Todo o texto está apoiado no sensacionalismo, na ocultação de fontes (diz obter informações 'documentação interna' a qual teve acesso o jornal através de um coronel do exército que pediu anonimato etc.).
A interpretação focada na suposta documentação secreta, já que não parece convencer ao jornal qualquer outra explicação relacionada com a segurança do processo eleitoral. Para o ABC não há dúvidas de que é uma tentativa de golpe do próprio presidente através de "comandos armados". Claro que a proliferação de números e siglas que confundem ao leitor pretende dar uma imagem de ser uma informação fiável, pois aparentemente maneja muitos dados. Além disso, o uso das aspas sugere citas textuais. Entretanto, nada do que relata o diário está fundamentado ou apresenta algum aval, o que é, acima de tudo, anti-jornalístico; não se dá uma noticia, mas um conto, uma história para provocar uma reação.
Porém, esses três meios de comunicação não são públicos e dificilmente ocultam os interesses que defendem e o afã partidário e intervencionista que sustentam. Ocorre que a mesma situação se dá nos meios públicos, como a RTVE, que são pagos do dinheiro dos nossos impostos e que supostamente têm certo equilibro e controles, pois são um serviço público. A realidade é que, mesmo sendo públicos, não existe nenhum controle por parte dos cidadãos e, ao final, o papel que exerce é o de complemento dos meios privados.
Na televisão espanhola existe uma tentativa de não utilizar determinadas linguagens ou expressões tão abertamente anti-chavistas, portanto a estratégia que usam não é a de fazer campanha contra Chávez, mas fazer campanha a favor de Capriles. Uma cobertura muito amplia foi dada para as primarias da oposição e para a eleição de Capriles. Surpreendentemente a cobertura foi quase igual que nas primarias estadunidenses.
Encontramos na web diferentes noticias extraídas do EFE e uma reportagem que foi emitida no dia 13 de fevereiro em um informativos, como se fosse uma conexão ao vivo com o correspondente em Caracas. Está na internet com a seguinte manchete:
"O governador Henrique Capriles será o rival de Hugo Chávez nas eleições presidenciais da Venezuela"
Essa noticia contém todos os elementos para que possamos desmascarar a estratégia mediática de cara nas próximas eleições, toda ela coberta de uma roupagem informativa para que dê ao espectador a sensação de neutralidade.
Aparentemente, estão dando a notícia da eleição de Capriles nas primárias, porém o formato e a montagem nos dizem que se trata de uma reportagem realizada com anterioridade para a ocasião, ainda que apareça como conexão ao vivo.
-"o homem que ontem a noite explodiu de alegria num palco, o homem que arrasou nas primárias da oposição e que empreende o caminho para enfrentar H. Chávez passou mais tempo na rua que nos palcos".
As imagens que vemos é de um Carpiles vestido informalmente, primeiro festejando a vitória como si estivesse num show, nos dizem que 'arrasou' e nos dão a entender – com o plano geral da câmera fechado – que há muita gente. Depois, aparecem imagens cumprimentando na rua, caras de crianças... A voz do jornalista diz que inaugura escolas e que Capriles diz que na educação está o futuro da Venezuela. Em seguida, o candidato aparece sentado, com um traje formal, sem boné, falando como numa entrevista e dizendo:
-"a educação terá um rol fundamental na construção dessa Venezuela do progresso".
Posteriormente, o locutor diz "educação e ajuda aos mais pobres, Capriles não quer acabar com as missões sociais de Chávez, mas sim aperfeiçoá-las para não criar cidadãos dependentes e tem um modelo para reduzir a pobreza".
De novo aparece Capriles nessa entrevista pessoal dizendo:
"quando me perguntam qual é o modelo, eu digo, olhe, aí está o Brasil. Eu sou um seguidor do modelo que se desenvolveu no Brasil".
O jornalista volta a intervir em off sobre um fundo de militares marchando, armados, com a cara pintada, com trajes de campanha e gritando, numa imagem um tanto agressiva para nós; faz a introdução para as palavras do entrevistado, dizendo:
"Capriles sabe perfeitamente o papel do exército".
E dá passo a entrevista gravada que diz "um exército ao serviço dos venezuelanos, não umas forças armadas ao serviço do governo de turno".
Em seguida, o jornalista diz: "e este é o país com o que sonha". Então, outra vez Capriles:
"uma Venezuela primeiramente unida; estamos cansados da divisão, da confrontação, nenhum país divido avança".
Finalmente o jornalista, Luis Pérez, termina a reportagem dizendo: "entretanto, Capriles ainda tem que enfrentar o mais difícil, uma dura e longa campanha eleitoral de quase oito meses e um encontro nas urnas com o presidente Hugo Chávez, quem continua sendo um homem muito popular na Venezuela".
Esta é uma reportagem paradigmática; não informa sobre as eleições de Capriles, quais eram os outros candidatos para liderar a oposição, não explica o motivo pelo qual este foi selecionado, nem fala da oposição mesma. A reportagem está Montana como um vídeo do que será a campanha contra Chávez. Recolhem cuidadosa e sinteticamente todos os tópicos da estratégia de campanha os quais são, para surpresa geral, os mesmo que destacam os meios privados:
- a aproximação de Capriles ao povo;
- a manutenção das missões, especialmente da educação;
- o modelo do progresso brasileiro (em contraposição a um modelo liberal);
- o exército ao serviço do povo;
- a unidade;
- a não confrontação;
Na realidade, essa não é uma reportagem, nem se trata de uma conexão ao vivo com um correspondente, nem está improvisada. As imagens selecionadas, os cortes da entrevista com Capriles, o pé introdutório que faz o jornalista em cada um dos cortes, a seleção dos temas... Tudo está a serviço da campanha de Capriles. Trata-se de um spot publicitário de campanha.
É feita uma campanha contra Chávez a fim de limpar o terreno para uma oposição golpista.
A pergunta que creio ser relevante é sobre a coincidência no enfoque, uns meios abertamente contra Chávez, outros a favor de Capriles, todos configurando uma imagem negativa do presidente e se prestando a inversão causa-efeito. A confrontação, a beligerância e a instabilidade vêm causando a oposição durante anos, mas tudo isto é atribuído a Chávez. Tanto faz que se trate de meios privados ou públicos, de informação escrita ou televisiva.
As noticias se instalam na lógica amigo-inimigo, porém na realidade o inimigo não é estritamente Chávez, ainda que esta seja a imagem que focaliza todos os ataques, o inimigo é o projeto bolivariano (um projeto soberano, de independência nacional e a favor dos pobres). Esta guerra de longa duração contra Venezuela tem como porta-bandeira os meios de comunicação, pois são os que preparam as consciências, os que minam a moral do "inimigo", os que "dão alento as tropas próprias", os que, no caso que nos ocupa, levam tempo preparando o terreno si por acaso a oposição decide não aceitar o resultado eleitoral e lança um novo golpe. A experiência anterior permitiu traçar uma nova estratégia, mais afinada, que permitirá aos cidadãos espanhóis aceitar o fato de um golpe contra Chávez como provável e inevitável, pois se trata de um país divido, porém militarizado e com um presidente com presunções ditatoriais.
Também pode ocorrer, este seria um cenário menos dramático, que a oposição que respalda Capriles perca com muita margem de diferença e não tivesse a suficiente credibilidade para impugnar as eleições. Então, seria necessário ter o terreno preparado para a justificação da derrota e culpar o "violento chavismo" a espera de outra ocasião mais favorável e com maior acumulação de arsenal mediático.
Tradução de Camila Lee para o Diário Liberdade