Além disso, o governo atual de direita já tem o apoio de grande parte dos meios de comunicação, o que reafirma que para este governo, La Nación era simplesmente uma “perda de dinheiro”.
Reproduzimos (traduzido e adaptado da fonte original, o site Rebelión) um artigo esclarecedor sobre o acontecido com La Nación, da autoria do jornalista e escritor chileno Ernesto Carmona.
Os trabalhadores fizeram no dia 24 deste mês o seu último esforço para impedir que o presidente do Chile cumprisse com a promessa eleitoral de desaparecer com o diário governamental La Nación, que traz consigo a eliminação do Diário Oficial, licita uma valiosa infra-estrutura imobiliária e de maquinarias de última geração. Além disso, essa decisão elimina um competidor do mercado publicitário e da impressão para os dois únicos protagonistas relevantes deste negócio no país, o duopólio El Mercurio/La Tercera, rede de jornais que pertencem a Agustín Edwards e Álvaro Saieh, cujos interesses serão fortalecidos com a diminuição da concorrência.
Sob o lema “La Nación não morre”, a coordenadora dos Trabalhadores das Comunicações, a Escola de Jornalistas e os sindicatos dos trabalhadores do La Nación convocaram aos cidadãos a se manifestarem no domingo passado, ao meio-dia, contra a desaparição do diário, com um grande ato político cultural nas proximidades do Palácio da Moeda, no Paseo Bulnes e Alonso Ovalle.
O convite para o protesto contra o fechamento do diário foi dirigido aos cidadãos, organizações da sociedade civil, partidos políticos e líderes de opinião para denunciarem e rejeitarem o desaparecimento do meio de comunicação. Os organizadores disseram que o fechamento do La Nación “irá ferir um direito humano essencial: o direito de acesso à livre informação e à liberdade de expressão”.
O futuro definitivo do diário foi selado na última segunda-feira, dia 24, quando se reuniu o Conselho Extraordinário de Acionistas da Empresa Jornalística La Nación S.A., convocado para dissolver e liquidar o jornal. “Como trabalhadores da comunicação denunciamos esta decisão política porque atenta contra o pluralismo e fortalece a privatização da informação em um setor social, político e econômico”, disseram as organizações que defendiam a sobrevivência do meio de comunicação.
A versão em papel do La Nación deixou de circular em 2010, ficando somente com o portal LaNacion.cl e uma importante insfra-estrutura de oficinas de última geração que presta serviços para imprimir outros meios de comunicação. Fundado em janeiro de1917 pelo político liberal Eliodoro Yánez e expropriado em julho de 1927 pelo ditador Carlos Ibáñez Del Campo para ser convertido em órgão do governo de turno, o fechamento definitivo afeta a mais de 300 trabalhadores, entre jornalistas e funcionários das oficinas de impressão.
No dia 14 de setembro, a Coordenadora dos Trabalhadores da Comunicação, os sindicatos 1 e 3 da Empresa Jornalística La Nación e deputados de três diferentes partidos políticas que formam a Concertación de Partidos por la Democracia [coligação de partidos de esquerda, centro-esquerda e centro criada em 1988] pediram a Piñera que reconsiderasse a decisão de fechar o diário. Não houve entrevista com o chefe de Estado, mas sim uma carta recebida pela Oficina de Partes do Palácio da Moeda.
“Viemos entregar uma carta ao presidente para dizer que não há motivos para o fechamento de um diário dentro de uma democracia, disse Nancy Arancibia, presidenta do sindicato número 3 da área jornalística. E adicionou: “La Nación está determinado para ser um meio público, com uma regulação pública que dê garantias a todos os chilenos e chilenas, porque é dever do Estado garantir este direito”. Os dirigentes dos trabalhadores foram acompanhados pelo senador Ricardo Lagos Weber (Partido pela Democracia, PPD) e os deputados Hugos Gutiérrez (Partido Comunista), Tucapel Jiménez (PPD) e Gabriel Silber (Democracia Cristã).
O Negócio da venda do La Nación
La Nación operava como sociedade anônima, com 69% de capital do Estado e 31% de origem privada. Os “investidores” particulares surgiram da cúpula dos encarregados de administrar a empresa estatal durante os primeiros governos de duas décadas (1990 - 2010) de administração da Concertación de Partidos por la Democracia, segundo revelou uma detalhada investigação realizada pela jornalista Alejandra Matus e publicada no El Mostrador no dia 3 de julho de 2009.
Um pequeno grupo de empregados de altos cargos administrativos do próprio diário, encabeçado por Raimundo Valenzuela, constituiu Colliguay S.A., para se converterem em investidores. Um intricado e complexo processo lhes conduziram a possuir 31% das ações, adquiridas a preços superfaturados e com facilidades de pagamento, segundo o informe de Matus. Na sessão da comissão diretora, que no dia 3 de setembro de 2012 decidiu liquidar a sociedade anônima, o grupo Colliguay S.A. votou contra, através dos seus diretores Enrique Alcalde, Manuel Velero e Teodoro Wigodski. Votaram a favor da liquidação os representantes dos 70% que pertencem ao governo, os quais foram o presidente Daniel Platovsky, Andrés Correa, Gastón Gómez e María José Gomez.
A decisão dos diretores foi pressionada pela Tesouraria Geral da República que, na sua tarefa de fazer caixa para o Estado, pediu a convocação extraordinária do conselho de acionistas para ajustar a dissolução da sociedade. O gerente da empresa, Francisco Ferez, também vinculado a Colliguay S.A., teve esse mesmo dia uma dura reunião com os trabalhadores da empresa ao explicar-lhes a decisão do Fisco de dissolver a empresa e liquidar os bens ao melhor licitador.
Depois da reunião dos acionistas no dia 3 setembro, a Empresa Jornalística La Nación S.A. e Puerto Madero Impresores S.A. convocaram a Licitação Pública N° 01/2012 para iniciar a venda dos ativos de ambas as empresas. Puerto Madero é a subsidiária que opera a vasta infra-estrutura de impressões do La Nación, cujos ativos foram os primeiros que os diretores declararam “prescindíveis”. O grupo Colliguay S.A. também possui 31% da Puerto Madero.
Ainda não há uma decisão sobre o que ocorrerá com o central edifício da rua Agustinas, n° 1269, que foi a sede tradicional do diário, em frente ao Palácio da Moeda. No seu interior alberga um arquivo jornalístico de mais de 95 anos, que teoricamente pertenceria “a todos os chilenos”. A área jornalística do imóvel foi desalojada no dia 20 de março de 2012, quando os funcionários do diário eletrônico foram conduzidos a uma sede menor, localizada na rua Serrano, n° 14.
Breve história de rapina intelectual e de outras mais
La Nación está associado a mudanças políticas e de rapina do século XX. Desde que o diário foi expropriado pelo ditador Carlos Ibáñez, em 1927, o antigo dono, o liberal de direita Eliodo Yánez, nunca recebeu uma compensação. Até hoje, os descendentes de Yánez reclamam uma reparação do Estado. Quando Ibáñez voltou ao poder ganhando de maneira limpa as eleições de 1952, designou como diretor do diário o memorável jornalista Darío Saint Marie Soruco, conhecido pelo pseudônimo “Volpone”, de grande percepção na escrita de assuntos políticos. O irmão de Darío Saint Marie Socuro foi chanceler no governo de Ibáñez.
Depois de dois anos, em 1954, na própria sede do La Nación, Saint Marie fundou o Clarín, o diário mais popular e de maior circulação que jamais existiu no Chile, com o slogan “Firme junto ao povo”, o mesmo que ainda utiliza o Crónicas, de Buenos Aires. O Clarín cresceu, se instalou sucessivamente em imóveis próprios mais amplos na rua Gálvez e av. Dieciocho, e perdurou até o golpe militar de 73, quando já pertencia a Victor Pey Casado, quem adquiriu o diário ao fundador na Espanha. “Volpone” se mudou de país porque seu fino olfato político lhe advertiu que cairia sobre Chile o apetite de poder da oligarquia aliada com os militares. Até hoje Victor Pey luta para que o Estado chileno pague pelos seus imóveis e maquinarias do Clarín que foram expropriadas pelos militares.
Em 1973, a ditadura de Pinochet (1973-2000) mudou o nome do La Nación para La Pátria, denominação de um antigo diário da cidade de Concepción e mais conforme com a ideologia fascista neo-liberal do regime ditatorial que duraria 17 anos. O diretor daquela época era Carlos Sepúlveda Vergara, ao mesmo tempo presidente da Escola de Jornalistas, demo-cristão e partidário entusiasta dos militares. Porém, La Pátria não experimentou um crescimento simplesmente porque carecia de leitores.
Uma ex-agregada da imprensa do período ditatorial em Buenos Aires, Silvia Pinto, a quem se vincula com a fase jornalística das operações Colombo – como parte da Operação Condor, a multinacional dos serviços de espionagem das ditaduras do cone Sul do continente Latino Americano – se inspirou na capital argentina e quando foi designada diretora do La Patria, tirou da sua carteira o nome e o logotipo do El Cronista, um excelente diário bonaerense do jornal de Rafael Perrota, dono também do El Cronista Comercial (vendido por assinatura) e outro entre os mais de 100 homens da imprensa que foram assassinados ou desapareceram na Argentina durante a ditadura de Rafael Videla. A má cópia do El Cronista pirateado durou até 1980, quando o diário voltou a se chamar La Nación.
Foto: El Día - Manifestação contra o fechamento de La Nación.