A mineradora San Esteban, responsável pela exploração da mina de cobre e ouro, havia sido proibida de operar desde 2007 após um acidente que matou um operário no ano anterior e feriu quase duas centenas. O grupo minerador impediu o fechamento da mina com o pagamento de simbólica indenização à família da vítima fatal, obtendo a chancela estatal para continuar a extração de minério apesar de manterem-se todo o risco conhecido.
Tão corriqueiro são os desabamentos de minas pelo mundo e tão “natural” é a apropriação midiática pelos trágicos fenômenos que o episódio inspirou a célebre película de 1951, a Montanha dos Sete Abutres, de BillyWilder. No filme, a agonia do operário alvo do “resgate” é prolongada até sua morte para que os negócios em torno do “reality show” não parem.
O processo de resgate em curso no Chile após 69 dias do soterramento dos operários nas mais insalubres condições é transmitido espetacularmente ao mundo como uma prodigiosa operação hollywoodiana, tudo a serviço de apresentar o direitista Piñera como um dedicado “salvador” do povo chileno. Seu governo, profundamente desgastado após os terremotos que atingiram o Chile, quando a população pobre afetada pelo cismo foi duramente reprimida, agora invoca a “unidade nacional” para capitalizar o resgate dos operários como um desfecho exitoso de seu esforço de pretenso “defensor do povo chileno”. O falso nacionalismo de Piñera não passa de uma fachada para encobrir que seu governo neoliberal vem aprofundando a política de ataques aos trabalhadores, responsável por provocar a agonia da classe operária super-explorada sob a ditadura e posteriormente no período da “concertación”. O negócio dos capitalistas tem como base o lucro sobre a vida e o sangue dos trabalhadores. A morte de 403 trabalhadores chilenos em dez anos nas minas, as mutilações por acidentes de trabalho, intoxicação por substâncias químicas, biológicas, poeiras minerais não significam nada para esse governo assassino.
O governo cinicamente oculta as terríveis condições das minas, cuja exploração vem sendo sucateada desde a ditadura militar comandada por Pinochet, um regime assassino do qual Piñera é herdeiro político. Após o golpe militar desferido em 11 de setembro de 1973, os militares fecharam várias minas justamente para atender as exigências das grandes minerados internacionais, ávidas pelo aumento do preço do cobre e outros minérios. O Chile é o maior produtor mundial de cobre, minério responsável por 40% das exportações do país.
Contra essa realidade os trabalhadores mineiros protagonizaram no ano passado várias greves no setor, denunciando anos de congelamento salarial, enquanto a patronal recorre ao Código do Trabalho herdado da ditadura para sufocar as lutas operárias. Essa é a verdadeira face da “união nacional” que prega o governo neste momento e que deve ser rejeitada pelos trabalhadores cujos interesses sociais e políticos são opostos aos do governo Piñera, dos patrões e do capitalismo assassino que enterra operários vivos. O resgate com vida dos mineiros chilenos é uma vitória da classe operária mundial, mas não deve ser comemorada com os nossos inimigos de classe, os capitalistas que assassinam quotidianamente milhares de trabalhadores nas fábricas e minas, como denunciou com a força de sua poesia o herói compatriota, morto pela ditadura pinochetista,Victor Jara.
“Que nunca hizo daño,
que partió a la sierra
y en cinco minutos,
quedó destrozado
Suenan las sirenas
de vuelta al trabajo
muchos no volvieron
tampoco Manuel”
(Te recuerdo Amanda, Victor Jara)