Agora com o testemunho de alguns dos seus chefes que Uribe Velez, para os calar, fez extraditar para os EUA. Os fios da sangrenta teia, como se confirma, conduzem ao punhado de empresários, generais e altos dignitários do Estado que são, em última análise, os principais responsáveis pelos monstruosos crimes cometidos.
Caracol Notícias fez há pouco uma bombástica entrevista telefónica com o chefe paramilitar Salvatore Mancuso, preso numa cadeia dos Estados Unidos, na qual foram ditas verdades que não deverão ser ignoradas pelas autoridades judiciais do país.
Sem esconder o seu medo de Uribe Vélez, Mancuso acusa o poder. Num tom de tristeza, mesmo desconcertado, queixa-se amargamente do engano e da traição do seu irmão no crime, esse presidente paramilitar e mafioso que governou a Colômbia durante oito anos. Na verdade, quando os chefes paramilitares começaram a confessar as suas verdades nos tribunais, Uribe extraditou-os para os Estados Unidos para os calar. Não queria que no apuramento da verdade surgissem os nomes de empresários, generais e altos dignitários do Estado que manejavam por fios invisíveis Castaño, Mancuso, Jorge 40, e toda a chefia ensanguentada, como inspiradores na cúpula, da estratégia paramilitar e a sua carga de crimes de lesa humanidade.
O poder estabelecido não quer a verdade, O seu afã prioritário é eludir a sua responsabilidade jurídica e evitar que a nação massivamente o sublinhe, exija reparação, garantias de não repetição e imponha o saneamento das instituições. Deverão encomendar a Roy Barreras [1] um quadro jurídico especial que lhes esfume os medos.
Na sua presença na rádio, o senhor Mancuso insiste que é um erro e um absurdo a mensagem que se está a enviar para os processos de paz, desde a administração anterior, que fala de um governo que não cumpre a palavra dada, que engana, que mente. Não é justo, diz, que não se informe o país que o caminho da paz está minado pelo engano e pela traição.
Para o governo, verdade, justiça e reparação não passam de palavras vãs que só se conjugam com o engano. Só estão na prisão, e desterrados, os cabecilhas paramilitares, alguns parlamentares de pouca monta da bancada uribista, mas não aparecem em lado nenhum os autores intelectuais, os que conceberam a estratégia.
Mancuso e Uribe, dois homens, dois lados da mesma moeda
Uribe teve relações íntimas com o para-militarismo. Com algum temor, há que admiti-lo, Mancuso atreve-se a confessar que se reuniu várias vezes com ele. Que é verdade a denúncia de Fabio Ochoa Vasco (capo do cartel de Medellín, preso nos EUA) sobre o financiamento paramilitar das campanhas presidenciais de Uribe. Que Álvaro e o seu irmão Santiago Uribe manejavam os «doze apóstolos», o grupo paramilitar que assolou o norte da Antioquia. Que o então governador desse Departamento, Álvaro Uribe, utilizou através do seu secretário do governo, Pedro Juan Moreno, as Convivir (Cooperativas de vigilância) como trampolim para o crescimento e fortalecimento do para-militarismo.
Muito grave, no quadro constitucional que rege a Colômbia que o ex-presidente, através do senador Mário Uribe e do seu Consiglieri José Obdulio Gaviria, tenha tentado derrubar o Supremo Tribunal de Justiça para montar um tribunal ad hoc manipulável, tirado da manga. Típico da conduta dos gângsteres e mafiosos.
Quando se afirma que um paramilitar ocupou a Vice-presidência da República, Deus e Francisco Santos sabem que isso é verdade. Disse-o Mancuso, que sendo cabecilha activo passou vários dias como hóspede de honra, na residência daquele em Bogotá: foi esse Santos quem pediu insistentemente a Carlos Castaño [2] para criar o Bloco Capital do para-militarismo para ajudar a contar o avanço da guerrilha. Castaño pôs o Comando do Bloco à sua disposição e propôs-lhe que assumisse o papel de elemento de ligação com os paramilitares... A Justiça não pode continuar a assobiar para o lado. O homem continuou, como se nada se tivesse passado aos microfones da Radio Caracol Notícias.
Envolvidos mais que nunca com o paramilitarismo: o primeiro dos Santos, Francisco, Álvaro Uribe e o segundo dos Santos, Juan Manuel, actual presidente da Colômbia.
Outra denúncia concreta de Mancuso é que o general Mario Montoya nomeado em determinado momento por Uribe como comandante do exército, era um general paramilitar. Não só lhes entregava carregamentos de armas, também participou em acções conjuntas com os paramilitares, como no caso da Comuna 13 de Medellín, onde morreram e desapareceram centenas de habitantes. Aconteceu sempre que os peões do «sumo pontífice» paramilitar ficavam expostos, este para os salvar enviava-os ao serviço diplomático exterior. Montoya acabou como embaixador na República Dominicana.
É o momento de se saber quais foram os membros do exército que entregaram ao cabecilha Carlos Castaño a informação que deu origem ao assassínio de Jaime Garzón. Quais foram os generais, que como macabra «solução técnica», recomendaram a Mancuso para evitar o escândalo de tantas mortes no Catatumbo, que depois de enterradas voltaram da cova para serem transformadas em cinzas a cinzas em fornos crematórios.
Operários bananeiros de Ciénaga, vítimas do paramilitarismo, que cobrava três cêntimos à Chiquita por cada caixa exportada. Foram assassinados dirigentes sindicais atrás de dirigentes sindicais, numa guerra levada a cabo pela aliança Estado/transnacional/para-militarismo.
De acordo com Mancuso, e não só ele, muitos empresários do país e multinacionais financiaram o para-militarismo. A Chiquita, que é o nome atrás do qual se esconde a United Fruit Company, autora do massacre das bananeiras em 1928, e la Dole, por exemplo, pagaram 3 cêntimos de dólar por cada caixa de banana exportada. Como Postobón, outras empresas nacionais entregaram voluntariamente recursos aos paramilitares. Generais, como Rito Alejo del Río, recomendaram-lhes que os contactassem. Mas é como se nada se tivesse passado.
Sobre o paramilitarismo, a impunidade invadiu a Colômbia e ameaça afundá-la nas trevas do esquecimento. O ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, o principal responsável paramilitar acobertado pelos «falsos positivos» [3] obstruiu, durante todo o tempo, a justiça e conspirou contra os tribunais que não se lhe subordinaram. Tem escondido na clandestinidade o seu ardiloso conselheiro, Luis Carlos Restrepo, procurado pela Procuradoria da República. Deixou acantonado como embaixador no Vaticano o responsável dos atentados detonados por telefone. Preparou o asilo no Panamá da ex-chefe da DAS, Maria del Pilar Hurtado, tal como os seus antecessores ligada ao para-militarismo e a muitas outras podridões.
Tirem a mordaça aos chefes paramilitares extraditados para os Estados Unidos para que o país conheça a toda a verdade. Uribe já cansa com a sua cantilena repetitiva da «vingança dos criminosos», quando algum capo para-militar atraiçoado resolve dizer a verdade.
Cada vez que sai à baila o seu nome na boca algum caso criminoso, emite trinados de disfarce, fundamentalmente contra a insurreição, que não são trinados mas grasnidos de pássaro da violência dos anos cinquenta.
A Colômbia tem o direito de sair da horrível noite, de sacudir os governos criminosos, procurar alternativas políticas e sociais, procurar um novo governo que se distinga pelo respeito pelos direitos dos cidadãos e privilegie a humanidade.
Montanhas da Colômbia, 17 de Junho de 2012.
* Membro do Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP.
Notas do tradutor:
[1] Médico e político colombiano, actualmente senador, que há pouco defendeu a política terrorista da Colômbia na UNASUR.
[2] Carlos Castaño foi fundador das Autodefesas Camponeses de Córdoba e Urabá (ACCU), organização paramilitar terrorista da extrema-direita colombiana.
[3] Corpos de pessoas vestidos como se fossem guerrilheiros que foram assassinados pela polícia e o para-militarismo, classificados pelas autoridades como guerrilheiros, o que mais tarde se provou se falso.
Publicado em:
http://farccom.blogspot.com/2012/06/cronica-de-ivan-marquez-farc-ep-mancuso.html
Tradução de José Paulo Gascão


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