O seu escritório não é precisamente grande mas está acostumado a esses espaços. O seu escritório como Presidente da Assembleia Constituinte de Montecristi não era precisamente mais amplo que este que ocupa agora no edifício da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, FLACSO. "Mas tinha o seu próprio banheiro", delimita e sorrri.
Da sua participação na construção da última Carta Magna passaram pouco mais de três anos e não são poucas as coisas que mudaram. Já não milita nas fileiras do governo e, pelo contrário, é quiçá um dos críticos mais agudos do comportamento do regime. Conhece-o por dentro.
Em um placar sobrepõem-se média dúzia de cartazese há um que destaca cheio de significado. É o que promocionava o Primeiro Encontro de Ecologistas Infantis que se desenvolveu em Quito a 13 de março de 2010. Ao lado, enquadrada, a sua nomeação como titular da Constituinte e um desenho de Eloy Alfaro, de traços duros, que o mostram tão destes lados, tão mestiço.
Conta que com aquele que se declarou "o primeiro acostista" se viu por última vez a 28 de setembro de 2008. Desde esse momento, não voltaram a falar.
Não o chamou a 30 de setembro?
"Não, nesse dia me mobilizei para que os movimentos sociais saíssem para defender a Constituição. Não o consegui".
Agora está dedicado à cátedra. O seu escritório está cheio de relatórios, de apontamentos, de livros. Um de Vladimir Ilich Ulianov estava em posição de consulta. Pareceria ser que era o último que revisava.
Não tem saudades da política "porque estou a fazer política -à minha maneira- quando comento algo, quando assumo posição sobre um tema, quando cumpro a minha tarefa e agora que estou a empurrar a conformação desta Coordenadora Plurinacional pela Unidade das Esquerdas também".
E como está correndo isso?
Melhor do que esperaria. Estamos a trabalhar com muita seriedade com diferentes grupos de esquerda. Trabalhamos em diversos níveis: o dos partidos e movimentos políticos onde constam o MPD, Pachakutik, Participação (o grupo de Gustavo Larrea); temos outro nível onde estão os movimentos sociais, algumas centrais sindicais do FUT e naturalmente a Conaie, bem como outras organizações grandes e pequenas. Depois há outro nível que o conformam uns 150 governos autónomos alternativos onde há prefeituras, municipalidades, juntas de freguesia.
E finalmente um onde estão os e as asambleístas do bloco progressista de esquerda.
E o governo onde fica, eles dizem que também são de esquerda?
Pois há gente do governo que é de esquerda mas, lamentavelmente, o conglomerado do governo não é já de esquerda. E eu acho que, em algumas das políticas, o governo se está a distanciar a cada vez mais das propostas iniciais do que foi o plano de governo 2007-2011 do movimento PAÍS, elaborado em 2006, que sentou as bases de uma proposta de esquerda. Na prática, o presidente Correa está a virar as costas às origens da Revolução Cidadã.
É como o condutor de um autocarro que põe pisca-pisca para a esquerda e vira para a direita. Isso gera uma confusão.
Então, este governo que diz ser de esquerda não é de esquerda?
Isso não chegaria a dizer. Há elementos de esquerda neste governo, eu não tenho por que o negar, mas o eixo vertebrador cada vez fica mais distante dessas propostas iniciais. No econômico, no político, no social não temos este momento uma proposta realmente revolucionária.
Eu acho que o positivo do governo do presidente Correa pertence ao passado. O que entusiasma, o que mobiliza, o que gera esperanças pertence ao passado.
Se olharmos para a frente temos muita preocupação com o que está acontecendo e com o que vai acontecer.
Qual é esse passado de luzes?
O processo que se seguiu para elaborar a Constituição de Montecristi, um processo participativo, uma amplíssima discussão. Que fica disso? Praticamente nada. O governo procura tomar distância dos mandatos constitucionais, o governo já não discute com a sociedade as leis, impõe-nas, recorre a mecanismos ilegítimos em termos de representatividade democrática e participação cidadã. Vejo como positivo que este governo tente descobrir todo o que ocorreu ao redor dos irmãos Restrepo, mas chama a atenção que se preocupe com um fato do passado -com o qual estou de acordo- e para adiante, na atualidade, esteja a gerar situações de maior repressão e de intolerância. Há mais de 200 lutadores populares, defensores da vida, da água, da natureza, perseguidos e arguidos como "sabotadores e terroristas" em um país onde é evidente que não há terrorismo.
Para além dessas ações, o Presidente sustenta que é de esquerda.
Eu às vezes começo a duvidar. Eu acho que é um economista keynesiano progressista mas realmente de esquerda parece que não o é. Parece que nos equivocamos porque alguém de esquerda tem que trabalhar pela ampliação dos direitos, das garantias, das liberdades. Eu acho realmente que o presidente Correa está a apostar em um caminho diferente ao que esperávamos muitos no país.
No entanto, também não chega a ser um homem de direita.
Mas é uma pessoa autoritária. Esse é um traço característico dos governos oligárquicos.
Esta Coordenadora de esquerda em formação tem fins eleitorais?
É também com fins eleitorais. As esquerdas não só têm que se organizar para participar nas eleições, como também para discutir as propostas, para encontrar respostas adequadas aos problemas que tem que enfrentar o País. Terá que falar de eleições em um momento dado, mas agora não estamos ainda discutindo candidaturas.
A esquerda está o suficientemente madura para chegar a um candidato único que enfrente Correa?
Esse é o grande desafio que temos neste momento que abordar. Oxalá a esquerda demonstre a suficiente maturidade, coerência e uma grande abertura para gerar um ambiente que nos permita não só discutir quem serão os candidatos ou candidatas, mas qual é a proposta. Tem que ser uma proposta convocante não excludente.
Poderia dar-se uma aproximação com a direita?
Pessoalmente não tenho nada que falar com a direita. Como falar com representantes dos governos causantes da grande debacle nacional? Representantes dos governos de Bucaram, de Mahuad, de Gutiérrez, o que temos que falar com eles? Debater sim, propor teses, discutir respostas e propostas que são de interesse nacional com todo mundo. Mas, falar, falar para quê?
E menos irem juntos em uma eleição
Essa possibilidade não existe. Vamos levantar uma tese desde a esquerda para convocar ao povo a que volte a renacer a esperança, em base a uma democracia mas em base a uma revolução radical também.
Esta unidade das esquerdas dá-se porque este foi um mau governo?
Há coisas em que se avançou.
A política internacional, por exemplo, é uma política soberana, sustentada no respeito. No macroeconómico vejo também elementos interessantes na medida que foi uma política contracíclica. No âmbito da política produtiva vejo que o falhanço é total. Sendo o governo que maiores rendimentos petroleiros teve de toda a história, que se beneficiou de enormes rendimentos tributários graças ao trabalho do SRI e que obteve também benefícios pela forma em que se renegoció a dívida externa em 2008, princípios de 2009, não conseguiu ainda pôr em marcha o aparelho produtivo.
É verdade que há dois trimestres quando a economia cresce a um oito por cento mas isso é recém, estamos a falar ao quinto ano de governo.
Esteve contra a Consulta, na qual Correa propôs meter as mãos na justiça. Como vê o processo?
O facto de propor esta reforma de uma forma errada, inconstitucional, está a afetar os direitos básicos. Está a afetar a independência das funções e isto se aprofunda quando o governo declara em emergência à justiça. É uma barbaridade.
O que se passaria se a Assembleia Nacional, com outra maioria, declarasse em emergência o Executivo e começasse a mudar ministros? Reclamaríamos. O mesmo está a acontecer neste momento. Em 18 meses não vamos ter essa reforma profunda. Em breve vai acabar-se o governo. Em 2013, em 2017, quando o povo equatoriano assim desejar, e terá que fazer um outro processo para mudar os Cortes de Correa. Não teremos melhorado nada.
A briga com a mídia tem um fim?
Eu não acabei de entender qual é o fim do Presidente. Acho às vezes que ele requer levantar uns moinhos de vento para ter quem enfrentar porque, na realidade, que é o que se está a fazer? Está a enfrentar os grupos de poder económico? Não, não os está a enfrentar. Os grupos de poder económico neste governo quiçá já não têm a possibilidade de decidir quem são os ministros, isso é bom, mas não deixaram de ganhar e não deixaram de acumular. Embora o governo tenha levado muitos recursos aos setores populares, fê-lo sem afetar esta excessiva e insultante concentração de riqueza nesses grupos económicos. Não há um processo de redistribuição, não há revolução.
E, por que Rafael Correa quer silenciar os meios?
Porque não é uma pessoa que aprendesse a viver em democracia, seguramente. Acho que essa pode ser a razão fundamental.
Quando eu estava na Presidência da Constituinte ele acusava-me de ser demasiado democrata, quando na verdade se é democrata ou não se é democrata. E em caso de dúvida sempre mais democracia, nunca menos. Acho que é necessário um controlo e regulação no âmbito dos meios de comunicação, a Constituição estabelece as bases mas não se avança a isso. Seguem-se fechando os espaços de crítica onde se podem formular alguns questionamentos ao governo e sem crítica já não há debate público. E sem debate público já não há democracia. E sem democracia impossível uma revolução.
Pelo que diz, não votará em Correa.
Não, em 2013 esperamos ter um candidato ou candidata própria que levante o entusiasmo do povo para fazer realidade as transformações propostas faz cinco anos.
E talvez seja o senhor?
Disso não estamos a falar agora. Já me mudou de tema.
Entrevista publicada na Revista Vistazo (www.vistazo.com)
