Rafael Correia sabe que eleitoralmente já não é o mesmo de 2007. Menos de metade dos eleitores disseram-lhe SIM na sua consulta de 7 de maio, menos de metade decidiu apoiar sua gestão, confiar nele. É muito difícil, apesar do tamanho de sua arrogância, que se arrisque a perder o controle da maioria de assembleístas e, mais ainda, a pôr em risco sua própria reeleição.
O Presidente não atua desse modo nos canais sabatinos por uma simples atitude visceral, por uma desordem emocional, é mais grave ainda: é sua concepção ideológica, realmente acha que o Estado é ele, que as instituições têm validade sempre que agirem sob seu comando direto, sob sua ordem. A democracia é só um discurso nas mensagens da publicidade oficial. Enquanto a "revolução cidadã avança", as liberdades democráticas restringem-se. Absurdo que só é compreensível em um projeto político de afirmação do capitalismo sob uma intervenção protagonística do Estado.
Mas o correlato desta realidade é a clarificação da tendência democrática, progressista e de esquerda, da qual já não faz parte o presidente Correia. Em diversos foros e palcos de discussão, os representantes das organizações e partidos políticos que fizeram parte da Coordenadora Plurinacional "Desta vez NÃO", expressaram seu compromisso de consolidar um processo de unidade da esquerda, partindo de clarificações fundamentais, como o reconhecimento da diversidade das forças que participam, a necessidade de um programa que recolha as principais bandeiras do movimento social organizado, dos trabalhadores, nacionalidades e povos.
Mas talvez a mais importante clarificação seja a que propõe que o objetivo estratégico desse processo unitário não será o de reformar o capitalismo, modernizá-lo a partir dos interesses das transnacionais e novos grupos de poder, como faz o atual governo, mas o do revolucionar, ultrapassar e para abrir passagem a uma sociedade socialista. Definição profundamente significativa, considerando que dentro do processo estão organizações populares e partidos políticos como Pachakutik, o MPD, Montecristi Vive e Participação, que foram protagonistas da vitória do atual governo e que, uma vez que denunciaram sua deriva para a direita e lhe tiraram o apoio, protagonizaram uma campanha na consulta popular passada, que deixou em vidência a fraqueza do regime e uma recuperação das forças progressistas.
A outra feição que marca a clarificação desta tendência e o desenvolvimento das forças revolucionárias é a preparação da Convenção Nacional do MPD, em um processo democrático único na história do Equador, e que se converte em um exemplo para as restantes organizações e partidos políticos.
O MPD elegerá 21 diretoras provinciais, com o voto direto e secreto de seus militantes e filiados em todo o país, que para 1 de outubro ultrapassarão os 300 mil, bem como à nova dirigência a nível nacional. O Equador vive um cenário de luta ideológica e política que talvez não tem comparação na história, e isso significa desenvolvimento. Embora os cenários por momentos se mostrem complicados, nada poderá deter a roda da história.
