São oito horas da manhã e o dia amanheceu com sol. A cidadã e trabalhadora pública Carlota Tembe* sai à rua para inteirar-se dos acontecimentos, pois na noite anterior, quando foi deitar, havia ainda grupos de manifestantes protestando nas proximidades da praça da juventude, no populoso bairro da Magoanine, na periferia da cidade de Maputo, capital de Mocambique. Depois de dois dias de intensas manifestações, parece que a calma volta a espreitar em Maputo.
As ruas que nos últimos dois dias estiveram em agitação, com queimas de pneus, fumaça, fogo e contingentes policiais que respondiam às manifestações populares com violência, estão mais tranquilas. Ainda assim, nenhum transporte público está em circulação.
A senhora Carlota Tembe* juntou-se a muitos dos seus vizinhos e participou das manifestações do dia primeiro setembro. A subida do preço dos alimentos de primeira necessidade, que motivou as manifestações, está afetando significativamente a vida desta mulher trabalhadora. Casada e mãe de três filhos, (dois estudando), toma conta da família sozinha, pois seu esposo imigrou para a África do Sul, há quatro anos. Com os atuais agravamentos dos preços do pão, arroz, luz e água, Carlota Tembe precisaria ganhar três vezes mais para aguentar o custo de vida que hoje vive o povo de Moçambique.
Carlota recebe por mês um salário que ronda os 2300 meticais (cerca de USD 62). Com o aumento do preço de pão, por exemplo, Carlota vai passar a gastar cerca de 21 meticais por dia. Calcula-se que, até ao final do mês, tenha gasto perto de um terço do seu salário só na compra do pão, alimento básico para a população de Moçambique. Com o que lhe sobra deve ainda garantir a alimentação e a ida de seus filhos à escola. Com a subida do custo de vida, Carlota verifica um déficit enorme, entre o que ganha e o que ela precisa ter apenas para alimentação.
Pobreza absoluta
As dificuldades que enfrenta Carlota servem de parâmetro para compreender a vida dos moçambicanos. De acordo com os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Moçambique é um dos países mais pobres do mundo (ocupando, em 2007, a 172ª posição numa lista de 177 países no que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento Humano); 54% da sua população vive com menos de um dólar por dia.
O país é profundamente dependente de doadores externos. Mais da metade do seu Orçamento Geral é garantido por um grupo de 19 doadores estrangeiros - 17 países, mais o FMI e Banco Mundial. Estes atores, em última instância, são os que ditam a estrutura econômica e os modelos de desenvolvimentos adotados em Moçambique.
De socialista a ultraliberal
Com o fim da guerra civil que durou 16 anos em Moçambique, passou-se de um regime socialista para uma política ultraliberal que trouxe o aumento do desemprego e a criação de elites econômicas e políticas. O presidente da República de Moçambique, que também lidera o partido Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Armando Guebuza, é considerado o moçambicano mais rico e é dono das mais lucrativas empresas que operam em diferentes ramos no país.
A promessa que o Guebuza fez na sua campanha eleitoral, tanto para o mandato anterior como para o atual, foi de reduzir drasticamente a pobreza absoluta e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Essas promessas políticas foram se tornando utópicas a cada dia que passava, pois o custo de vida tem registrado aumentos constantemente em Moçambique.
Com o agravamento da situação e a incapacidade de busca de soluções para resolver os problemas básicos, o Governo levou o povo ao desespero, tendo este se manifestado.
Desenvolvimento?
Nos últimos anos, Moçambique tem atraído investidores estrangeiros, com destaque para as multinacionais que operam majoritariamente no setor da indústria extrativista. Um exemplo é a empresa que fábrica de alumínio, MOZAL, e a brasileira Vale, que opera na extração de mineira, no centro de Moçambique.
O governo tem anunciado que o país registra atualmente um excelente crescimento econômico devido a influência que exercem esses investimentos. Contudo tal não se verifica na vida direta do cidadão moçambicano. A pergunta da contradição é: Há crescimento econômico? Porque não há comida no prato do cidadão comum?
É que, tal como explicou o economista Nuno Castelo Branco, "essas multinacionais exportam lucros líquidos de muitos milhões de dólares anuais sem pagar uma quinhenta [quase nada] de impostos". Ou seja, os investimentos das multinacionais não trazem nenhum impacto direto no melhoramento da vida da população Moçambicana.
Manifestações
As condições para que a população moçambicana se manifestasse, tal como fez no início de setembro, já estavam há muito tempo reunidas. Aliás, com o fenômeno desta semana apenas se consolidou uma revolta popular que vinha se construindo com o passar dos anos cujo sinal de grande dimensão se verificou no dia cinco de fevereiro de 2008, quando uma manifestação de mesma dimensão paralisou as cidades de Maputo e Matola, durante três dias, porque o preço do chapa, uma espécie de transporte público moçambicano, foi agravado, sem que os salários tivessem sido ajustados.
Mais do que a situação de pobreza em si, as desigualdade sociais que se verificam principalmente na capital moçambicana, onde o centro é coabitado, por um lado, pelos proprietários das grandes empresas, pessoas das ONG's e das 17 agências das Nações Unidas aqui instaladas e, por outro, pela elite negra moçambicana, demonstrando deste modo uma espécie de apartheid social entre o centro e a periferia, são apontadas como sendo a razão principal que levantou estas manifestações populares.
"O anúncio do aumento dos preços foi apenas a gota que transbordou o copo, mas o povo já vinha vivendo em situações muito críticas", disse uma fonte ligada ao Instituto Moçambicano de Estudos Sociais e Econômicos (IESA).
Uma cidadã de um bairro periférico expressou sua indignação na televisão, quando era feita a cobertura das manifestações dizendo: "eles (o governo) estão lá na cidade a comer do bom e do melhor e nós estamos aqui a passar fome. Vamos nos manifestar até que respondam as nossas reclamações".
Segundo disse o jornalista e analista moçambicano Jeremias Langa "estamos diante de uma classe que se sente excluída dos processos de partilha e redistribuição da renda, que sente que o Estado rompeu o contrato social consigo; que não vê mais no Estado uma fonte de soluções, mas sim de problemas – porque promove a acumulação de uns em detrimento da maioria".
Estava, portanto, evidente que estas manifestações fossem acontecer. Só um governo insensível e indiferente podia fechar os olhos e surpreender-se com estas manifestações.
Responsabilidade
O governo moçambicano teima em não assumir as suas responsabilidades pela degradação do poder de compra do povo moçambicano. Na sua reação atribuiu a culpa à chamada conjuntura internacional e chamou os manifestantes de vândalos, desempregados, bandidos e criminosos. No lugar de considerar uma reavaliação da sua medida em relação à subida do preço dos alimentos, o governo ordenou que a população abandonasse as ruas e regressasse ao trabalho, porque, segundo ele, só assim se elimina a pobreza.
"A subida de preços é irreversível, o governo está trabalhando para acalmar os ânimos. Mas os preços não vão baixar", anunciou Alberto Nkutumula, vice-ministro da Justiça e porta-voz do Conselho de Ministro.
Vários círculos de opinião condenam esta posição do governo. Os governantes sinceros nunca aparecem para pedir calma a um povo faminto e desgastado pelas péssimas condições de vida que o próprio governo ajudou a construir.
De acordo com dados oficiais, até 2 de setembro, oito pessoas morreram e 288 ficaram feridas no confronto entre a polícia e os manifestantes. Refira-se que estas manifestações foram convocadas via SMS, mensagens por celular.
* nome fictício - pela sua preferência alteramos o nome real da fonte.
