De objecto a sujeito
Na Internacional Comunista, conhecida posteriormente como Terceira Internacional, fundada pelo revolucionário russo Vladimir Ilitch Lenine e demais sociais-democratas adeptos dos bolcheviques em vários países, no seu 1º Congresso, a 2 de Março de 1919, a África era nomeada. O "Manifesto da Internacional Comunista aos proletários do mundo inteiro!", aprovado neste congresso, afirmava: "Escravos coloniais da África e Ásia: a hora da ditadura do proletariado na Europa soará para vós como a hora da vossa libertação".9
Mais uma vez, a libertação do jugo colonial, tanto na África como na Ásia, viria de fora, da Europa, tendo como protagonista a classe operária.
A grande alteração na forma de ver a questão colonial, com a África aí incluída, aparece no 2º Congresso da Internacional Comunista, realizado em Julho de 1920. As "Teses e adições sobre as questões nacionais e coloniais", aprovadas neste congresso, incluem a elaboração, já adoptada pela ala bolchevique do Partido Social-Democrata Russo antes da Revolução de Outubro de 1917 e bastante desenvolvida por Lenine no livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo, de que a manutenção das colónias em Ásia e África por parte das potências europeias era um elemento central na dominação capitalista mundial, nomeadamente através da principal potência capitalista de então, a Grã-Bretanha. De que forma? Seja pela obtenção de altas taxas de lucro, seja pela consequente possibilidade de neutralizar o potencial revolucionário das classes trabalhadoras metropolitanas através de concessões económicas, sociais e políticas a um sector destas, a denominada aristocracia operária. Estas ideias estavam explícitas em várias passagens, entre as quais:
"É pela escravidão de centenas de milhões de habitantes da Ásia e da África que o imperialismo inglês conseguiu manter até o presente o proletariado britânico sob a dominação burguesa. A mais-valia obtida pela exploração das colónias é um dos apoios do capitalismo moderno. Quanto mais tempo demorar a supressão desta fonte de lucro, mais será difícil à classe operária vencer o capitalismo. Graças à possibilidade de explorar intensamente a mão-de-obra e as fontes naturais de matérias-primas das colónias, as nações capitalistas da Europa procuraram, não sem sucesso, evitar por seus meios a bancarrota iminente. O imperialismo europeu teve êxito nos seus próprios países em fazer concessões sempre maiores à aristocracia operária. Ao mesmo tempo em que procurava manter as condições de vida nos países dominados num nível muito baixo, não recuava diante de nenhum sacrifício e consentia em sacrificar a mais-valia nos seus próprios países, do que as restantes colónias."10
Mas o mais original neste texto vem a seguir, quando, pela primeira vez num documento oficial da esquerda comunista, os povos coloniais aparecem, além de vítimas, também como sujeitos da sua própria libertação do jugo colonial e, por consequência, do derrube do próprio capitalismo, ao lado do proletariado europeu. A revolução proletária e a revolução colonial aparecem juntas pela primeira vez:
"A supressão pela revolução proletária do poder colonial da Europa derrubará o capitalismo europeu. A revolução proletária e a revolução das colónias devem concorrer, numa certa medida, para a saída vitoriosa da luta. A Internacional Comunista deve, portanto, alargar o círculo de sua actividade. Ela deve estabelecer relações com as forças revolucionárias que estão a trabalhar pela destruição do imperialismo nos países economicamente e politicamente dominados."
Mas há mais. Pela primeira vez também num documento aprovado em instâncias superiores do movimento comunista é apresentada uma crítica duríssima a este próprio movimento, neste caso a sua predecessora, a Segunda Internacional, e ao seu eurocentrismo:
"A Segunda Internacional, dirigida por um grupo de políticos e contaminada por concepções burguesas, não deu nenhuma importância à questão colonial. O mundo só existia para eles dentro dos limites da Europa. Ela não viu a necessidade de ligar-se ao movimento revolucionário dos outros continentes. Em lugar de prestar ajuda material e moral ao movimento revolucionário das colónias, os membros da Segunda Internacional tornaram-se eles próprios imperialistas."
Para corrigir este comportamento, neste mesmo texto surge uma breve caracterização do movimento de reacção colonial e a proposta de a Internacional Comunista intervir nestes países através da formação de partidos comunistas. O movimento colonial, aos olhos da esquerda comunista, não mais dependeria exclusivamente dos operários das metrópoles, mas somar-se-ia a estes para lutar pela independência e pelo estabelecimento do socialismo nos seus próprios países:Em 1922, no último congresso da Internacional Comunista antes da vitória de Estaline, com Lenine doente, são apresentadas as "Teses sobre a questão negra". Pela primeira vez, o tema da "raça" seria discutido no movimento socialista internacional.
Conclusão
